quinta-feira, 18 de junho de 2009

Notas de passagem

(notas sobre poesia)
Alfredo Werney



Drummond é um poeta cuja obra se nos mostra em constante modulação. A cada livro que lemos deste poeta sentimos que ali pulsa uma veia irrequieta. Uma veia que busca incessantemente descobrir coisas novas. Cecília é uma poetisa que se nos mostra a mesma em cada experiência poética: versos redondos, fluentes, sonoros, sugestivos e extremamente bem construídos. É possível encontrar um verso mal feito na obra de Drummond, na de Cecília não. Por este motivo prefiro Drummond. A perfeição é enfadonha...


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É perfeitamente possível se elaborar uma poesia ao mesmo tempo hermética, rigorosa em seus aspectos formais e, paradoxalmente, extremamente comunicativa e de forte apelo oral. Mas, no que se refere à moderna poesia brasileira, só João Cabral conseguiu...


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Da primeira vez que li “I-Juca Pirama” fiquei surpreso com o efeito que o texto me causara. Eu percebi que não estava apenas lendo sobre uma batalha entre índios, mas efetivamente estava no meio dela... Ouvia tambores, gritos, ruídos, sussurros... Gonçalves Dias me ensinou que na poesia a palavra não fala sobre as coisas: as palavras são as próprias coisas...


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Ezra Pound nos disse, imbuído de razão, que a poesia empobrece na medida em que se afasta da música. Estive pensado no caso da poesia concreta que se afastou da arte dos sons e se aproximou das artes plásticas. A meu ver, o resultado não foi dos melhores: a poesia perdeu sua força oral e não conseguiu atingir a força imagética da pintura e da escultura...


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Quando leio um poeta eu procuro sempre observar as imagens criadas por ele, a combinação dos sons das palavras, as idéias expostas, a beleza das metáforas, etc. Quando leio Octávio Paz e Alberto Caeiro não consigo pensar em nada disso. Simplesmente sou arrastado para o mundo que eles criam. Parece ser uma poesia que não passa pelo pensamento, ela atinge diretamente a nossa epiderme. Penso que esses é que realmente são os poetas natos...

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Dizem alguns poetas que a poesia é um ofício rotineiro, que exige muito mais "expiração" do que "inspiração". Eu continuo acreditando que há diferença entre um pedreiro e um poeta: o primeiro constrói o que já está foi previamente criado por um arquiteto, o segundo inventa seu próprio mundo para posteriormente construí-lo. Para construir não é necessário ter muita inspiração, mas para inventar sim...


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Por detrás do rótulo de “moderno” e “contemporâneo”, se escondem muitos poetas medíocres. Propõem a destruição do verso, quando, na verdade, ainda não aprenderam a fazê-lo. Um soneto de Camões pode ser pode ser muito mais contemporâneo do que um risco numa página (que muitos dizem ser um poema).


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Ser um poeta é um ofício muito difícil: tem que dominar a língua, descobrir imagens pouco usuais, preocupar-se com a sonoridade de cada palavra, criar belas metáforas, idéias interessantes, etc. Porém, há um caminho mais simples hoje em dia: tirar uma foto com uma biblioteca ao fundo, escrever “poemas” elogiando as belezas de sua terra natal e mandar para as fundações culturais publicarem. Esses são a maior parte de nossos “poetas” atuais...

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Muitos consideram Caetano e Chico como mero letristas de música popular. Jamais serão poetas! - asseveram alguns intelectuais. Porém, nunca vi ninguém questionar se Thiago de Melo e Florbela Espanca são realmente poetas. Se Chico e Caetano lançassem livros de poemas em vez de discos, seriam bons poetas... Por outro lado se Thiago e Florbela lançassem discos de música popular em vez de livros, seriam letristas. E letristas medianos, diga-se de passagem...


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O mundo de Mário Quintana é onde habitam as coisas miúdas, pequenas, tímidas. O mundo de Jorge de Lima é onde habitam as coisas grandes, eloqüentes, as vozes profundas e graves da nossa alma. Diante de Quintana nos sentimos grandes, pois temos a impressão de que a poesia é algo simples (que brota do nada) e que qualquer um pode ser poeta. Diante de Jorge de Lima nos sentimos pequenos, somos esmagados pela força sonoro-visual-espiritual de sua palavra. A poesia nos parece algo inatingível...


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Se Mário Quintana fosse músico seria um Debussy: leves sensações em vez de tensões fortes, sutilezas timbrícas, frases sugestivas, texturas sem peso... Jorge de Lima estaria mais para Wagner: tensões que geram tensões, texturas densas, frases cromáticas de forte teor dramático...


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Manuel Bandeira é talvez o mais musical de nossos poetas. Sua poesia possui uma espécie de musicalidade subtendida, como dissera certa vez um crítico literário. Bandeira não se conforma simplesmente em construir um verso com dezenas de assonâncias e de aliterações – que muitas vezes são apenas ornamentos gratuitos. Bandeira saboreia a cor sonora de cada vogal, tateia a textura de cada palavra, experimenta o ruído de cada consoante e dá alma às palavras através do ritmo...

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Da Costa e Silva, em seus “Poemas da fauna”, demonstrou um imenso virtuosismo poético. E de fato este poeta piauiense é o nosso versejador mais virtuoso. Porém, nos “poemas da fauna”, ele extravasou: trocou a poesia pelo puro artesanato do verso. A técnica se esgotou em si mesma...

domingo, 14 de junho de 2009

literatura piauiense: quo vadis?



APORIAS DO CONCEITO DE LITERATURA PIAUIENSE


Wanderson Lima*


“Se não existe literatura paulista, gaúcha ou pernambucana” – diz-nos Antonio Candido – “há sem dúvida uma literatura brasileira manifestando-se de modo diferente nos diferentes Estados”. No Piauí, não se foge à regra: há certas recorrências estilísticas, certas continuidades temáticas que, se não nos são exclusivas, não estão espalhadas nos quatro cantos.


Mas Candido, sempre cauteloso, não afirma que essa diferença com que a literatura se apresenta em diferentes Estados gere sistemas literários autotélicos. Pensar em estéticas nacionais e regionais é um equívoco do qual Candido não partilha; em seu sistema, à absorção de uma nova estética preside um processo dialético que conjuga questões locais aos princípios daquela estética. Assim, o romantismo brasileiro não é igual ao francês, ainda que se inspire nele; por outro lado, uma vez que se trata de um processo dialético, o fato de os autores brasileiros redimensionarem temas e padrões românticos para fazê-los falar sobre nossa realidade não indica que o romantismo brasileiro constitua uma estética nacional. Em última instância, portanto, se falarmos em literatura regional, a peculiaridade desta seria de natureza temática, jamais estética: assim, só a literatura piauiense se empenharia em ficcionalizar o que se convencionou chamar – passe a palavra! – piauiensidade, isto é, um conjunto de traços construídos coletivamente através de variadas práticas culturais, assumidas sob o rótulo de identidade cultural piauiense.


A noção de literatura regional, portanto, tem de partir da concepção da literatura como expressão do espírito de um povo ou de um local – concepção justa, mais propensas a exagerações. Adotando este ponto de vista, consideramos que na literatura piauiense está contida a “alma” do povo piauiense. A literatura aqui é espelho em que o povo se constrói e se mira; é documento dos mais valiosos, porque está nele o que um povo pensa de si.


Dentro dessa perspectiva, a literatura abre um flanco de pertencimento fundamental na constituição de uma identidade cultural. Nela mergulhamos para nos sentirmos enraizados, para sentirmos que não vogamos à toa e sem face. As obras emprenham nosso imaginário e vão engendrando narrativas que nos orientam, e mesmo nos coagem, a assumirmo-nos como filhos dessa ou daquela terra. Porém, quando se mira, obsessivamente, esta capacidade produtiva do discurso literário e fixa-se como mister deste o produzir/refletir o ethos de uma coletividade, está-se restringindo a ação dos autores (“só poderás escrever sobre tua aldeia”) e o arco de temas da literatura (“a literatura deve tratar de temas locais”). É neste ponto em que o belo espelho torna-se cárcere.


Vejamos, como exemplo, o que seria literatura piauiense segundo um crítico abalizado, Herculano de Moraes: “Literatura Piauiense é o conjunto ou acervo de obras literárias registradoras das emoções, das paisagens geofísicas, humanas e sociais, de memória e do comportamento do povo do Piauí”.


Não é preciso muito esforço para se desmontar tal conceito, já que ele contempla, basicamente, uma literatura de cunho regionalista. Seguindo-o à risca, Elio Ferreira deixaria de pertencer à literatura piauiense no momento em que escreve um poema sobre o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no Pará: tornar-se-ia um autor da literatura... paraense. O próprio Herculano Moraes põe em crise aquele conceito ao inserir em seu escopo Mário Faustino (p. 133 – 138, tomo II). Mas teria o crítico outra saída? Deixaria de fora de sua Visão Histórica da Literatura Piauiense Faustino e os demais escritores que não exploram temas locais nem se valem de vocábulos regionais? Tomaria mesquinhamente como um critério basilar o local de nascimento do autor e, dessa forma, excluiria de seu livro, entre outros, Hardi Filho e Rubervam du Nascimento?


A aporia em que Moraes se imiscui – de forma alguma um privilégio privado – é sintomática. Quando nos aproximamos da noção de literatura regional – e mesmo de literatura nacional – bordejamos perigosamente essa via. O patriotismo, disse Octavio Paz, não é apenas uma aberração moral – é também uma falácia estética. Quando digo literatura piauiense trago para o campo artístico uma noção geopolítica e histórica. O problema é que é impensável conter um grande autor nas bordas de uma literatura regional. Mário Faustino tem mais que ver com o inglês Dylan Thomas do que com Da Costa e Silva. Assis Brasil tem mais afinidade com o americano William Faulkner do que com Fontes Ibiapina. H. Dobal se afina mais com o irlandês W. B. Yates do que com Martins Napoleão. O.G. Rego deve mais o seu talento a certa tendência da romancística francesa – Sthendal, Flaubert, Proust – do que a um Abdias Neves. Os exemplos poderiam se multiplicar ad naseum como comprovação de que é redutor ler autores exclusivamente pela pauta da noção de literatura regional. A narrativa das continuidades que as histórias da literatura de diversos Estados forjam estão fadadas à incompletude e mesmo ao fracasso, pois o "espaço" literário não coincide com o espaço geográfico. Um prova cabal disso é o modo radical como Allan Poe mudou os caminhos da poesia francesa.


Não nos enganemos, porém: esse reducionismo que está no bojo da noção de literatura regional é demasiado evidente para deixar de ser reconhecido. Mas por que, mesmo apesar disso, continua a se falar sobre literatura regional? Eis uma pergunta complexa a que, neste espaço, só posso dar respostas provisórias.


Três motivos podem servir de resposta à indagação. Primeiramente, a necessidade de produzir zonas de pertencimento, isto é, de forjar identidades. Nesta perspectiva, a literatura piauiense responde à necessidade de se produzir uma identidade cultural piauiense. Em segundo lugar, as literaturas regionais resultam da experiência da margem, e nesta pauta são uma resposta ao sentimento de marginalidade cultural a que certos Estados brasileiros são relegados. Mesmo que se fale em literatura paulista, carioca ou mineira nunca estas noções serão estratégicas como o são literatura piauiense, maranhense ou cearense, pois Minas, Rio e São Paulo não ocupam a margem cultural no que concerne ao discurso literário. Em terceiro lugar, como nos ensina Foucault, quando se cria uma nova área de saber e instituições para abrigar este saber cria-se, também, um campo de poder; assim, a instituicionalização da literatura piauiense, promovida principalmente pela Academia Piauiense de Letras, permitiu (e permite) à elite cultural piauiense (de dentro e de fora da Academia) ocupar um espaço social privilegiado e influente na sociedade piauiense.


Resulta desta terceira resposta as implicações extra-literárias do conceito de literatura piauiense. Usar este conceito traz implicações políticas porque, a partir dele, se valida as regras de um campo de produção cultural cujo desenvolvimento depende do insulamento cultural (literário) do Estado. A quem, porém, interessa este insulamento?




* Wanderson Lima é poeta, ensaísta e professor. Doutorando em Literatura comparada pela UFRN e autor de vários livros.