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quarta-feira, 28 de março de 2012

MORRE MILLÔR FERNANDES





ADEUS MILLÔR FERNANDES!


Alfredo Werney


            Millôr Fernandes nos ensinou muito através de seu humor conciso, cortante como uma faca só lâmina. Com ele aprendemos a rir de nossas próprias desgraças. Artista e profundo conhecedor de nossa cultura, disse exatamente o que nós todos queríamos dizer sobre o Brasil e sobre as coisas. Sua expressão, ao mesmo tempo exata e irônica, nos fez entendermos mais de nós mesmos: os brasileiros. Tradutor, poeta, desenhista, humorista, teatrólogo, roteirista, reuniu conhecimentos que daria para distribuir para dezenas de artistas diferentes.

            Hoje o Brasil amanheceu sem graça, sem magia e poesia. Com um sorriso desdentado! Millôr Fernandes era um antídoto contra esse humor atual  -- demasiado burro e grosseiro. Sua arte não se esgotava no puro riso, pois o artista carioca sempre inseria em seu humor fortes doses de crítica e de inteligência. E diga-se: sempre imbuído de uma visão de mundo muito rica e pessoal. Como tradutor, brindou-nos com Shakespeare, Sófocles, Molière e Brecht. Como escritor, alargou as possibilidades estéticas de nossa literatura.

            M. Fernandes odiava as frases feitas, mas eu (pobre mortal, "um macaco que não deu certo") não tenho como fugir delas: a inteligência brasileira perdeu um de seus pensadores mais lúcidos. Muito mais que um criador de piadas e de textos irônicos, como muitos ainda pensam, Millor foi um intérprete de nossa cultura e um escritor possuidor de um estilo raro de se encontrar em nossas letras.

            Triste é o fato de lembrarmos-nos desse grande mestre apenas no dia em que ele se desvencilhou do mundo. Mas, como dizia o próprio artista: “A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte”. Adeus Millôr!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

propaganda- Sabão OMO





LIMPEZA VISUAL

(Alfredo Werney)

Raramente me impressiono com as propagandas de TV. Isso porque, em geral, elas não são feitas para serem apreciadas esteticamente, mas apenas para apresentarem um determinado produto. Evidentemente, algumas delas têm a pretensão de serem bonitas visualmente, mas a verdade é que raras vezes conseguem. O modelo que ainda predomina é o que se vê nos comerciais (demasiadamente pobres!) das “Casas Bahia”: a beleza visual é suplantada pelo excesso de informações visuais e sonoras.

Ainda guardo em minha lembrança uma propaganda de grande inventividade artística. Ela me despertou muito a atenção na época em que foi lançada. Refiro-me ao comercial realizado para o sabão OMO, em que aparece um robozinho. Tudo é de uma beleza visual que agrada até os mais refinados apreciadores de cinema. Trata-se de um pequeno robô que, gradativamente, vai se humanizando até se transformar em uma criança que brinca, despreocupada, em uma poça de lama.

Toda a transformação da máquina em pessoa é estruturada com mestria. A obra visual inicia-se com o abrir de uma porta. Vemos um robozinho estático, sem muita graça. Um cachorro entra no quadro e se balança. A máquina começa a se movimentar em sincronia com a trilha musical, composta de piano e cordas suaves. A partir de então se inicia a “humanização” da máquina. O robozinho descobre o quintal da casa, começa a pisar as folhas secas no chão, brinca com a grama e com as poças d'água. Aos poucos a máquina toca nas coisas e desperta a atenção para a beleza da natureza.

Os elementos formais são de grande importância para construir o sentido da seqüência: a montagem dos planos vai mostrando o processo de transformação da máquina em criança, na medida em que o ritmo se torna mais rápido e entram novos elementos visuais no quadro. A música, de maneira eficiente, narra toda a seqüência. Novos timbres entram na trilha instrumental, o ritmo se torna mais vigoroso e as notas musicais mais intensas. É como se a música também se tornasse, pouco a pouco, menos mecânica. A explosão final do comercial é quando o robô se torna inteiramente humano. A chuva forte e a poça de água sugerem o nascimento, a descoberta das coisas.

O desfecho da propaganda é composto pela frase: Toda criança tem direito de ser criança. Porque se sujar faz bem. Há neste enunciado um interessante deslocamento do lugar-comum criado pela nossa sociedade que, em geral, ainda é pautada por uma idéia exagerada de higienização: a sujeira não é mais vista como algo ruim (como desleixo, pobreza, feiúra). Ela agora está associada, de forma poética, à humanização, à alegria e à beleza. Idéias estas que nos são apresentadas através de um perfeito equilíbrio dos elementos artísticos. Uma limpeza visual!

terça-feira, 31 de maio de 2011

CHAVES





Wanderson Lima*





Shakespeare e Chespirito


O povo ama o programa Chaves (El chavo del ocho), não exatamente apesar, mas por causa de sua simplicidade de circo mambembe. Assistindo aoChaves, sabemos de antemão, ou ao menos intuímos com alguma nitidez, o que vai acontecer; mas como a criança que pede todas as noites que lhe contem a mesma história, e que sempre a ouve com o interesse da primeira vez, rimos sem pejo. É relativamente fácil desqualificar El chavo devido a sua simplicidade flagrante – seus esquemas reiterativos, sua pobreza cenográfica, seus personagens planos e caricatos –, porém é um grande engano. Em termos de cultura de massa, sofisticação, muitas vezes, não passa de verniz para vender mercadoria vagabunda; de séries americanas a novelas brasileiras, daria para apontar uma quantidade considerável de exemplos de pseudosofisticação, tanto na concepção damise-en-scène quanto num roteiro recheado de alusões eruditas. Chaves, ao contrário disso, dispensa qualquer verniz: é íntegro, essencial, em sua pobreza. Roberto Gómez Bolaños, o homem que criou e que protagonizou o seriado Chaves, é um talento cômico que dá continuidade ao teatro popular improvisado (cujas raízes é a commedia dell’arte do século XV italiano).

No México, seu país de origem, Bolaños recebeu a alcunha de Chespirito, que é a forma diminutiva e castelhanizada de Shakespeare. Se fôssemos traduzir tal alcunha para o português, seria algo mais ou menos como Chequespirzinho. Esse apelido dado a Bolaños encerra em suas sugestões, sem dúvida, algum elogio e reconhecimento ao seu talento de comediante, mas, por outro lado, representa uma visão bastante corrente e negativa da cultura de massa: a cultura de massa como sendo uma corruptela da alta cultura (assim como “Chespirito” nasce da corrupção de “Shakespeare”).

A discussão sobre a veracidade ou não dessa interpretação da cultura de massa (como corruptela, caricatura, redução simplória e esquemática da alta cultura) tem longa história e vários ângulos. Um desses ângulos foca o problema na durabilidade. A idéia tacitamente aceita é a de que o reino da cultura de massa é o do efêmero: tudo nela, porque traz a marca do inautêntico, é feito para ser consumido rápida e irrefletidamente. Inúmeros exemplos, entre eles o seriado Chaves, podem comprovar o quão pouco problematizante e maniqueísta é esta perspectiva.El chavo del ocho estreou no México em 1971; este ano, portanto, faz 40 anos ininterruptos de exibição televisiva, e isso contando com um número limitado de episódios (tem 290 episódios e parou de ser produzido desde 1992). No Brasil, estreou em 1984, no SBT, e atualmente passa não só neste canal como também no Cartoon Network, em ambos os canais com audiência satisfatória. Nos Estados Unidos Chaves também é apreciado e chama-se “The Kid From 8”; na Itália, chama-se “Cecco Della Botte”; na Alemanha, “Der Junge aus der 8”; na França, “Le Grosse Huit”. Ao todo, Chaves é visto e faz sucesso em, pelo menos, 29 países (segundo informa a Wikipedia). Tão surpreendente quanto o número de países é a variedade de público: crianças e idosos; analfabetos e cults; gente que nem mesmo é muito aficionado em televisão.

Como explicar o fenômeno Chaves, sua universalidade, sua durabilidade relativa, contornando os chavões condenatórios que se emitem em nome da inferioridade da cultura de massa? Neste texto, tento uma atitude compreensiva – que o filósofo Paul Ricoeur chamaria de “hermenêutica da confiança” –, buscando entender, numa atitude de abertura à obra, como o seriado produz, por meio de mecanismos simples, sua magia, sua efemeridade que dura. Evito, assim, ler o Chaves a partir de categorias que denotem suspeita, como manipulação, massificação, alienação e decadência da cultura, tão ao gosto de certo elitismo que engloba nomes que vão de Adorno a George Steiner; tampouco espero encontrar no seriado algo como um foco de resistência popular ou sabotagem dos valores da elite, como fariam os que abraçam as sugestões teóricas de Michel de Certeau, por exemplo. Parto de uma constatação – a de que a pobreza recobre todas as camadas significativas do Chaves – e busco extrair algumas conseqüências dela.


A pobreza como qualidade central


Chaves não é apenas um programa sobre pessoas pobres, é um seriado pobre em todas as suas camadas: a temática é a pobreza; o cenário é pobre; o roteiro é marcado conscientemente por certa pobreza literária. Mas por um aparente paradoxo, logo desfeito, a magia do seriado advém de sua pobreza: dela emana sua absoluta legibilidade e seu apelo fácil a uma identificação.

No Brasil, foi Ruth Rocha quem primeiro percebeu a pobreza positiva do programa. Numa entrevista à revista Veja, em 1999, Ruth contrapôs nestes termos a pobreza do Chaves à opulência do Castelo Rá-Tim-Bum:


O melhor programa infantil é o Chaves, do SBT. Pode ser pobre, feio, mas quem escreve aquilo é inteligente. Chaves é circense. As crianças se identificam com os diálogos, com os trocadilhos, com as cenas de pastelão e com o personagem-título, que se comporta exatamente como elas. É uma atração simples e divertida, que não faz mal a ninguém. Considero-o melhor que o Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura. O Castelo é consistente, tem ótimos atores e atrizes e, no deserto da TV brasileira, é uma maravilha. Mas é um pouco over, exagerado.
O Castelo tem muita cor, ruído, grito, correria, apelo sensorial. As crianças, principalmente as menores, têm dificuldade em assimilar o que acontece na tela (Veja, 5/5/1999).


As fontes de identificação que Ruth Rocha elenca atraem não apenas crianças. Nada em Chaves cria uma dissimetria entre o programa e o telespectador. A pobreza do Chaves, como na literatura de Dickens e no cinema de Chaplin, é carregada de dignidade e lirismo. A Chespirito pouco ou nada interessa escavar as causas sociais da pobreza, denunciar o sistema político ou extrair o drama meloso das situações de fome e carência material. Ninguém precisa ter pena ou se indignar com a situação do Chaves, da Chiquinha, do seu Madruga. Eles são pobres, eles são bons. Ou melhor, eles são pobres e, por isso, são bons. Pobreza é bondade. Esta é, a propósito, uma das forças catárticas do seriado: pobreza não é vergonha.
Num episódio, seu Madruga pergunta ao Chaves se ele já tomou café da manhã. Ele responde que, sim, duas vezes. Seu Madruga se surpreende e Chaves explica melhor: duas vezes naquele ano. O público explode em risadas, risadas sem nenhum laivo de pena. Chespirito acerta ao não permitir, ou ao só permitir raras vezes, que sintamos dó de Chaves. Se assim não fizesse, o seriado seria provavelmente mais um dramalhão insosso, uma denúncia ingênua. Felizmente, Chaves, o personagem, guarda um pouco do herói pícaro da tradição espanhola, que Chespirito deve ter lido muito – talvez não pelo lado do ardil, mas por haver em Chaves uma consumada consciência da arte de sobreviver. Chaves é órfão, não tem lar, não tem nome (o nome Chaves é uma invenção arbitrária, um abuso ao original), mas sabe fazer-se socialmente aceito – não se faz agressivo, nem se torna um pedinte: sua sobrevivência depende da empatia que ele gera com as outras pessoas. É de se notar que Chespirito põe Chaves num barril, aludindo ao modo de vida do filósofo cínico Diógenes de Sínope. E, de fato, Chaves partilha alguns traços comuns com Diógenes: ambos são mendigos, para ambos a pobreza é uma virtude (embora Chaves não verbalize isso), ambos só precisam do mínimo necessário (Diógenes, os raios do sol; Chaves, um sanduíche de presunto).

Em Chaves a pobreza é tema e agente estruturante. É o catalisador que desencadeia outras qualidades, como a legibilidade, a pureza, a ingenuidade, o lirismo e o humor. Da pobreza geral de Chaves, um dado que garante sua eficácia salta aos olhos: ser um mundo tipificado, de personagens psicologicamente pobres, mas que em conjunto formam um cosmos absolutamente verossímil e simpático.


Uma mundo tipificado


O talento de Chespirito, em sua criação El chavo del ocho, é evidente na elaboração de tipos sociais que, juntos, formam um quadro límpido da vida suburbana. A vila ou cortiço em que os personagens de Chaves habitam é um mundo integral, um microcosmo, cada peça desempenhando uma função.

Nesse mundo tipificado, o personagem Chaves é o centro em torno do qual gira tudo. Chaves tem oito anos, é órfão, e vive a maior parte do tempo num barril. É absolutamente sem origem: se mora em algum lugar, não sabemos; se tem parentes, também não sabemos. No livro “El diário de El chavo del ocho”, Chespirito esclarece algumas dessas questões, mas no programa televiso não. Mais ainda: Chaves não é apenas um Zé Ninguém por sua condição de mendicante, nem mesmo um nome ele possui. O fato de, no Brasil, “chavo” (cabrinha, moleque, guri) ter sido traduzido por “Chaves” representa uma séria distorção, porque, ganhando um nome, o personagem adquire uma dignidade que, na verdade, lhe falta. “Chaves” individualiza; “chavo” sugere que ele é um menor abandonado qualquer. De uma forma ou de outra, Chaves é a representação do garoto pobre, imaginativo e travesso, que habita vilas, cortiços e favelas, aqui ou no México.

Além de Chaves, há oito personagens de maior relevo. Quico, típico menino mimado, filho da ex-rica com ares aristocráticos – dona Florinda. Chiquinha, garota irônica e manipuladora, filha do segundo personagem mais carismático do programa, o seu Madruga, eterno desempregado, malandro consumado, sempre a dever 14 meses de aluguel. Forma-se aqui uma simetria de ausências: menino sem pai X menina sem mãe. Deixo a psicólogos e psicanalistas a consideração sobre supostos traumas deixados em Quico e Chiquinha devido a essas ausências familiares; lembro apenas que tal simetria acentua o traço bastante comum na vida suburbana e, em termos de efeitos de sentido no espectador, produzem maior empatia com o personagem – sabe-se, afinal, desde Aristóteles, que a nossa comoção aumenta na proporção em que os personagens sofrem por causas injustas ou alheias à vontade delas.
Completam o quadro dos personagens relevantes os seguintes tipos: professor Girafles, o intelectual de bairro, professor zeloso mas de pouco sucesso, apaixonado por dona Florida; dona Clotildes, a solteirona execrada pelas crianças, apaixonada pelo seu Madruga; senhor Barriga, o capitalista com surtos de generosidade; e Nhonho, o glutão (que forma contraponto com o Chaves: fome X glutonaria).

Nesse mundo bastante caricato, sobreleva-se um detalhe: a bondade essencial dos personagens, apesar de praticarem ações que sugerem o contrário. No mundo de Chaves, ainda que todos encarnem um ou mais pecados capitais – Chaves e Nhonho, a gula; Madruga, a preguiça; Florinda, a ira; Clotilde, a luxúria; Barriga, a avareza; Quico (e, em menor grau, Chiquinha e Chaves), a inveja; Girafales (e também Florinda e Quico), a vaidade –, quando postos a teste, amolecem o coração. Assim é que o senhor Barriga acaba perdoando os aluguéis atrasados ao seu Madruga; dona Florinda arruma empregos para o seu Madruga; seu Madruga freqüentemente se compadece com a fome do Chaves; e dona Clotilde ajuda as crianças algumas vezes, mesmo sendo apelidada de Bruxa do 71.

Decerto que não se trata de personagens densos, e nem é isso o que pede o gênero “sitcom” (a comédia de situação, com seu “saco de risadas”, e sua sátira social leve) nem qualquer outro tipo de comédia. Personagens “tipos” são abstrações, encarnações de virtudes ou defeitos, e não seres individualizados. Apesar de superficiais, a elaboração de tipos, se desobriga o criador de sondar as profundezas do ser, exige uma aguda capacidade de observação social, mérito que dificilmente se pode negar a Chespirito. Ou não? Obviamente, Chespirito elide as causas sociais da explicação da pobreza em Chaves; ele aceita a pobreza como uma condição dada e extrai dela a dignidade, o humor, o lirismo até. Bem, mas essa fuga da explicação político-social tem sua contraparte positiva: a universalização dos personagens. Afinal, a pobreza não tem lugar nem momento histórico rigidamente definidos, embora em cada lugar e momento histórico ela apresente uma face diferente. Chaves é o pobre intemporal.


O proletário e o pobre


Roland Barthes, analisando o filme “Tempos Modernos”, nota que Carlitos atribui ao proletário as características do pobre; graças a isso, o filme torna-se politicamente mais ambíguo, escapando ao panfletarismo, e logra ainda a reconhecida “força humana de suas representações” (Barthes). “Tolhido pela fome” – escreve Barthes –, “o homem-Carlitos situa-se sempre abaixo da tomada de consciência política”. Ora, o mesmo se pode dizer do Chaves: seu sonho não é transformar o mundo, mas matar a fome com um reles sanduíche de presunto. E essa sua cegueira nos comove pela sua pureza: em parte porque não há manipulação dramática abusiva, em parte porque não há manipulação ideológica abusiva. Além disso, esta cegueira social do personagem abre mais ainda nossos olhos para o modelo social injusto em que vivemos (o homem representado na comédia, como nos ensina Aristóteles, é inferior aos homens reais, e não raras vezes ensina graças à sua tolice ou cegueira). Quando vemos o que Chaves não vê, passamos a amá-lo mais ainda: ele é o mendigo puro em meio às estruturas de um mundo frio e injusto. Isto Bolaños nos transmite com uma sabedoria que flerta com o estoicismo, sem nenhuma mácula de ressentimento de classe.

Transformar a pobreza em tema de comédia ligeira, sem denegrir o pobre, dignifica Chespirito. Tudo em Chaves transpira leveza, e quase nos esquecemos de que “el chavo” é um menino mendigo – ou um herói mendigo, como o chama a pesquisadora Ludimila Cardoso.
Penso que a cultura de massa tem muito a ganhar quando evita a falsa sofisticação em prol de suas raízes populares, folclóricas, circenses. Em termos culturais, estruturas reiterativas e pobreza de meios podem ser antes estimuladores da criatividade do que sinônimo de banalidade, digam o que disserem os detratores da cultura de massa.El chavo Del ocho comprova isso.


*Wanderson Lima é doutorando em literatura pela UFRN. atualmente é professor de literatura da Universidade Estadual do Piauí.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BARTHES, R. Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

BOLAÑOS, R. G. (Chespirito). El diário de El chavo del ocho. México, D.F.: Punto de Lectura, 2005.

CARDOSO, L. S. A saga do herói mendigo: o riso e a neopicaresca no programa Chaves. Dissertação (mestrado). Programa de Pós-Graduação em Comunicação, UFG, Goiânia, 2008.

KASCHNER, P. Chaves do sucesso. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2006.

ROCHA, R. Coristas demais: a escritora e pedagoga Ruth Rocha avalia o que a TV oferece hoje às crianças (entrevista). In:Veja, São Paulo, 05/05/2011.

WIKIPEDIA. El chavo del ocho. Diaponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/El_Chavo_del_Ocho>. Acesso em 09 mai. 2011
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sábado, 16 de abril de 2011

URBANO ERBISTE





(fotografias de Urbano Erbiste)






URBANO ERBISTE: A POESIA VISUAL EXTRAÍDA DO GROTESCO


(Alfredo Werney)


Fotografia raramente se propõe a ser arte. Não que ela seja menor do que as outras expressões artísticas, mas é que poucos fotógrafos – pelo menos aqueles que trabalham para jornais de grande circulação – preocupam-se em interpretar e recriar esteticamente a realidade através das lentes. Geralmente, busca-se apenas documentar as coisas de maneira que cause um maior impacto ao interlocutor. Urbano Erbiste, um jovem fotógrafo do Rio de Janeiro, nos mostra sempre uma preocupação artística e um labor estético ao fotografar as coisas. Seu trabalho representa, a um só tempo, a realidade documental e momentos de extrema poesia. Refiro-me à poesia retirada da realidade grotesca (em especial da violência nos morros cariocas) e de situações cotidianas, que, a princípio, parecem-nos demasiado comuns e prosaicas para que se extraia poesia delas.

A fotografia (a primeira acima exposta) nos impressiona desde a escolha do lugar pelo fotógrafo. Uma paisagem tão bucólica como a que vemos está povoada de urubus – animais que, a primeiro plano, nos causam certo desconforto e nos remetem a idéia de sujeira e podridão. Não é comum aos nossos olhos, admitamos, uma fotografia criar um lirismo tão singular com tantos urubus inseridos no mesmo quadro - a menos que algum interlocutor desajustado ache que os urubus são as coisas mais lindas e poéticas do reino animal. Urbano Erbiste parece sempre estar no momento exato em que a natureza expõe sua poesia grotesca e indelével. Impressionam ainda nessa foto o ritmo e a perspectiva criados pela série de urubus pousados nos paus da cerca. A linha sinuosa e negra contornada por urubus produz um interessante contraste visual com a montanha verde. Observemos ainda que as várias direções dos bicos das aves dão mais movimento e dinâmica ao quadro. A árvore que está repleta de aves negras também é de grande beleza. Parece mesmo que, dessa árvore pobre e seca, brotam os animais em vez de frutos.

Urbano Erbiste possui várias outras fotografias de mesma intensidade poética, a maioria delas nos morros e nos espaços pobres e sujos do Rio de Janeiro*. Tal qual Baudelaire faz nos poemas, o fotógrafo extrai - com rara sensibilidade, diga-se - a beleza da imanência visual das coisas feias e trágicas (a terceira e quarta foto expostas deixam claro esta opção estética). O contraste, como se pode observar está presente em grande parte de sua obra: a elegância/ a sujeira; a alegria/ a violência; o belo/ o grotesco. Em uma de suas obras mais belas (a segunda acima exposta), vemos uma singela criança vestida com materiais extraídos de um dos lixões da “cidade maravilhosa”. Ela brinca de super-herói e nos olha com um impressionante tom de grandeza. Um instante único no qual se mesclam elegância e sujeira, poesia e registro documental, transcendência e prosaísmo.

O Rio de Janeiro das lentes de Erbiste é bem distinto daquele que visualizamos nos cartões postais feito para turistas e do que ouvimos nas letras de bossa-nova: uma cidade de extrema beleza e suavidade onde reinam a tranqüilidade e o amor. O mais importante de tudo isso: apesar de muitas de suas fotos serem de cenas de forte violência (uma delas mostra cadáveres de bandidos decapitados), o artista não procura despertar uma comoção fácil nem se utilizar do sensacionalismo típico dos programas policiais da TV. Urbano não julga nem exagera – como muitos fotógrafos fazem, com o intuito de conseguir um efeito impactante. Muitas das vezes um efeito gratuito e vazio. A câmera do jovem artista é exata e, ao mesmo tempo, cheia de poeticidade visual.



*As fotos podem ser vistas no blog do fotógrafo http://urbanoerbiste.blogspot.com/

domingo, 10 de abril de 2011

TRAGÉDIA NO REALENGO

Fernando Botero (Dores da Colombia)



CONTRA A BANALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA DO REALENGO

(Alfredo Werney)


Recentemente li, em meio a tantas leituras científicas sem nenhuma excitação, um interessante artigo de Inácio Araújo sobre o filme “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg. Neste pequeno texto, presente na coleção de livros “O cinema de Boca em Boca”, o crítico de cinema dizia temer que a tragédia vivida por milhares de judeus no período do Nazismo se transformasse um dia em telenovelas banais.

Trata-se de uma discussão interminável: até onde vão os limites da representação na arte? Um artista tem o direito de poetizar e transformar em objeto estético as desgraças alheias? Sobre esse assunto, minha opinião é peremptória: sou contra transformar em arte as tragédias coletivas e as dores profundas de uma determinada sociedade. Refiro-me aos artistas que querem tão-somente se promover na mídia ou despertar sensações fáceis e não àqueles que realmente se propõe a discutir, de maneira séria e sem sensacionalismos, a experiência da dor e suas representações na arte. Importante dizer que não quero afirmar, com tais argumentos, que a arte deva estar sempre atrelada à moral, mas acho uma atitude invasiva e perversa do artista representar uma tragédia só para ter audiência, como muitos fazem. Em relação aos jornalistas, não há mais nada para se discutir: a maioria deles se deleita ao transformar a dor alheia em espetáculo circense de quinta categoria.

Ao discutir essas questões relativas à representação da crueldade na arte, estou me referindo ao lamentoso massacre acontecido no dia 7 de abril na Escola Tasso da Silveira, no bairro Realengo (zona oeste do Rio De Janeiro). Transtornado com o que vi nos meios de comunicação – ainda mais pelo fato de ser professor de escola pública e conviver diariamente com crianças e adolescentes da mesma idade dos que foram baleados – procurei ler muitos textos sobre os assassinatos. Impressionou-me o fato de ver muitos “artistas” criarem poemas, canções (recebi uma recentemente em meu correio eletrônico) e vídeo-arte para expressarem suas dores. Não vou ser tão cético a ponto de dizer que esses “artistas de momento” não se comoveram com a tragédia no Realengo. Contudo, a verdade é que a maioria deles quer apenas ter um instante de atenção na mídia eletrônica para expor suas criações. Uma atitude de perversão, a meu ver.

Mário Quintana, em um de seus poemas curtos e precisos, comentou que por “mais que sejam grandes os problemas da China, nossos calos doem muito mais”. Realmente, tanto nós como esses “artistas de momento” não estamos sentindo absolutamente nada se imaginarmos o trauma que pais, amigos, familiares e professores daquela escola estão vivenciando. É muito fácil compor uma canção ou poema na tranqüilidade de nossas camas, com um saco de batatas fritas e um enorme copo de refrigerante do lado, se nós pensarmos no impacto psíquico experimentado por aquelas pessoas da escola do Rio.

A atitude mais nobre – para quem está vendo de longe um momento da vida tão difícil como esse – é, simplesmente, o respeito e o silêncio. Digo silêncio, porque não se trata de um crime no qual a sociedade possa fazer justiça: não foi por questões relativas ao tráfico de drogas nem pelas condições sócio-econômicas. Ademais, o criminoso cometeu suicídio. Porém, muitas pessoas adoram estar na TV e o fazem a qualquer custo. Lembro-me do caso da menina Isabela, que foi atirada pelo pai do sexto andar de um prédio de São Paulo em março de 2008. Houve indivíduos que saíram de ônibus das profundezas do Nordeste para assistir o “espetáculo” ao vivo em São Paulo. Alguns se vestiam de fantasias de anjo e de santos da Igreja Católica. Além disso, colocavam cartazes e apetrechos na mão para terem um segundo de audiência na tela.

Como sabemos, nunca havia acontecido em nosso país um crime de tal natureza. Não me resta dúvida de que Freud explicaria bem melhor do que Marx o assassinato da Escola Tasso da Silveira. As motivações estão mais ligadas aos distúrbios psíquicos do jovem assassino do que propriamente às contingências econômicas e sociais em que vivemos. E o que fazer desse modo? Seria melhor dizer o que não fazer diante de tamanha catástrofe: transformar tudo isso em poemas banais, em canções piegas e em vídeos espetaculosos. Essa atitude soa mais como desacato e invasão do que como um momento de condolência.

Há poucas semanas estive em Brasília e fui ver (no espaço Caixa Cultural) a exposição “Dores da Colômbia”, do pintor Fernando Botero. Eram cenas fortes de massacre coletivo, de narcotráfico, seqüestros e assassinatos no país sul-americano. Em nenhum momento, porém, senti que havia ali um desejo de auto-promoção do artista. Não existia pieguice, tristeza gratuita, sensacionalismo. Pode parecer uma contradição com o que já foi dito, mas o pintor colombiano me convenceu que ainda é possível mostrar algo trágico de uma nação sem a perversão e o desrespeito.

Houve algo que reforçou mais ainda a minha idéia de que nem todo artista que representa a desgraça do seu país o faz com interesse de se promover na mídia e nos negócios. Botero, ao receber propostas para vender suas telas e desenhos, recusou e fez uma doação ao Museu Nacional da Colômbia. Além disso, pronunciou as belíssimas palavras: “Não vou transformar em lucro as desgraças do meu país”. Reconstruindo as palavras do pintor latino: "Não vamos transformar em banalidade (revestida de arte) a tragédia do Realengo".

sábado, 2 de abril de 2011

"DE VOLTA PARA O ACONCHEGO"





PIAUIENSES SE APRESENTAM HOJE NO CLUBE DO CHORO DE BRASÍLIA


O show musical “De volta para o aconchego”, com o sanfoneiro Sivuquinha de Brasília e convidados (direção musical de Alfredo Werney e produção de Dimas Bezerra) foi apresentado no mês de fevereiro em Teresina-PI, no Espaço Cultural “Mamulengo” e no teatro “João Paulo II”. A sanfona e o talento de Sivuquinha – juntamente com outros importantes músicos do Piauí – repercutiram de tal forma que o show se expandiu até a capital do país. Hoje, dia 2 de abril, a partir das 21 horas, “De volta para o aconchego” será apresentado no “Clube do Choro de Brasília”, um dos mais tradicionais espaços culturais do Brasil. O violonista do Piauí, Alfredo Werney, está auxiliando na direção e montagem do show. A cantora piauiense Silvana Ferreira também participará do evento musical, que já vendeu praticamente todos os ingressos e está em destaque nas páginas culturais dos mais importantes jornais da cidade (Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Comunidade, etc). Os componentes do grupo são: , Daniel Pitanga (violão), Alfredo Werney (violão), Allan Cruz e Aloísio César (voz), Renato Vieira (percussão), Manoelzinho (acordeon) e Sivuquinha (acordeon). Entre os componentes, quatro são do Piauí. Na verdade, será uma noite “piauiense” em Brasília.


( Vida Cultural Produtora/ Brasília -DF)