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sábado, 18 de janeiro de 2014

Notas de passagem




NOTAS SOBRE A MPB

(Alfredo Weney)

·         Arnaldo Antunes é um compositor cuja música pode ser ouvida com os olhos e vista com os ouvidos. Devemos apreciar sua música com a boca, com os olhos, com os ouvidos e com as mãos.

·         Não há como negar que Jorge Ben é um compositor importante, principalmente pela sua performance musical. A composição que mais gosto dele é aquela feita por Chico Buarque “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta...”.

·         João Gilberto descobre uma música diferente dentro de cada música que interpreta. Pode-se dizer que, sem exageros, que sua interpretação é tão pensada que chega a mudar o sentido de uma letra.

·         Maria Bethânia interpreta ela própria. Ela canta não para expressar o texto musical, mas para querer se autoelogiar. Ela ganhou o status errôneo de maior intérprete da MPB, por parte de alguns músicos  e ouvintes brasileiros, porque nossa cultura musical foi edificada a partir de um equívoco: cantar bem é cantar notas agudas, com exageros e vibratos desnecessários.

·         O legado de Noel ainda está vivo. Basta ouvir Chico Buarque, Zeca Pagodinho e veremos que a bossa de Noel está em forma.

·         Noel é estupendo compositor. Isto é quase unanimidade. Suas letras trazem o cotidiano para a nossa música, além de uma nova perspectiva melódica e harmônica. Para mim, a maior obra de Noel ainda é Chico Buarque.

·         Guinga é uma das poucas novidades da atual MPB. Ele dialoga com Tom Jobim, sem imitá-lo – como o fazem muitos discípulos do maestro carioca. Além disso, ele nos mostra uma nova perspectiva do violão de acompanhamento: o violão passa a não ser apenas um condutor da harmonia, mas também um solista que contraponteia com o cantor.

·         Lenine nos mostrou novas trilhas musicais. Comprovou que a canção não morreu (como querem afirmar alguns compositores). Chão, sem dúvidas, é um dos maiores álbuns da nossa MPB. Há ali Jackson do pandeiro, Luiz Gonzaga, Hermeto Paschoal e toda uma tradição da MPB – com uma perspectiva musical atualizada e reestruturada.

·         Se o poeta é a antena da raça, como dizia Ezra Pound, Gilberto Gil é antena da nossa MPB. Ele sempre percebe os fenômenos sonoros, sociais e artísticos com antecedência. “Quanta” é um dos discos mais lúcidos e inventivos da MPB...

·         A obra de Chico Buarque é mais estudada do que ouvida. Ele já virou vítima dos estudos sociológicos, linguísticos e antropológicos. Basta você colocar Chico pra ouvir numa turma de amigos. Antes da primeira pancada do pandeiro, já irão desenterrar os Karl Marx, os Foucaults, os Greimas, os Jakobsons...

·         Não há como negar: o manguebeat nasce plenamente em Gilberto Gil. E isso não diminui em nada a importância do movimento. Pelo contrário, torna o movimento mais respeitado musicalmente.

·         Já ouvi muitos dizerem que o Belchior é um dos maiores nomes da MPB. E descobri que é verdade mesmo. Seu nome completo é Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

·         Elis Regina é uma grande cantora, não há como negar. Mas também não há como negar que muitas vezes ela massacra o texto musical pra cantar ela mesma, de forma extremamente afetada. Suas interpretações, em vez de expressivas, muitas vezes são, para usar as palavras de Augusto de Campos, escancaradamente “expressionistas”.

·         Roberto Carlos é o nosso compositor mais popular, como sabemos. Mas também é um dos mais criticados no meio musical. Eu sempre fui motivo de riso por defendê-lo. Suas músicas, embora sem muito rebuscamento, soam fluentemente e se impregnam facilmente em nossa memória, como um “nó inextricável”. Suas interpretações respeitam o texto musical, são afinadas e elegantes, além de se coadunarem muito bem com o todo do arranjo musical. Vou continuar sendo criticado, mas vou continuar elogiando Roberto Carlos...

·         Djavan é um fabricante de biscoitos finos. Em suas canções observamos uma poderosa harmonia de elementos musicais e poéticos: letra, arranjo, melodia, interpretação, timbres formam um tecido indissociável. Ao ouvirmos suas composições somos convidados a saborear cada acorde, cada palavra, cada movimento dos lábios de quem interpreta. Djavan é a canção coada, sem borra, pura e cristalina.

·         Vinícius de Moraes é a comunhão total entre literatura e música. Os músicos devemos agradecer todo dia pela existência, ainda que breve (ele morreu aos 67 anos), desse poeta. Ele deu um toque de espontaneidade e de naturalidade à cultura artística brasileira. Vinícius é uma avenida na qual os compositores populares se encontraram com os escritores acadêmicos. E esse casamento, diferente dos que Vinícius teve, tornou-se inseparável.


·         Tom Jobim “desdramatizou” a canção brasileira. As orquestrações e os arranjos repleto de notas, de excessos tímbricos (típicos do samba-canção e dos boleros), deram lugar a um discurso apolíneo, equilibrado, com poucas notas e timbres. Tom Jobim ensinou aos compositores e arranjadores brasileiros que “quem fala muito não tem nada a dizer”. Em Tom Jobim, a beleza está nos detalhes, nas coisas minúsculas...


·         Raul Seixas trilhou por um caminho da música brasileira pouco explorado. Suas canções brotam do diálogo do rock com toda a riqueza musical da cultura brasileira (Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Sérgio Sampaio, iê-iê-iê, etc). Elas também se associam a certo misticismo religioso e a um decadentismo romântico que não vemos muito na obra de outros compositores brasileiros (parece ser uma dicção própria do maluco beleza). Raul Seixas derramou na canção brasileira o espírito dionisíaco, psicodélico e transcendental. Ele é o Rimbaud da nossa MPB.



terça-feira, 7 de agosto de 2012







NOTAS SOBRE AS OLIMPÍADAS DE LONDRES
(Fred Torres)


·    Diego Hypólito não se saiu bem nas Olimpíadas porque, na verdade, sua especialidade é salto em vara.

·         Rubinho Barrichello prometeu vencer a próxima corrida da Fórmula Indy. É que ele vai pegar carona com o Usain Bolt.

·         Ao duvidar da velocidade de Usain Bolt, um amigo me disse em voz alta: Quero ver se em 2016 ele vai correr mais rápido do que as balas de fuzil!

·         César Cielo ganhou bronze nas Olimpíadas. Dizem que o peso de sua língua atrapalhou a prova.

·         Não torci contra o César Cielo pelo fato de ele querer menosprezar nossa Sarah no ano em que ela foi considerada a atleta do ano. Mas, pra ser sincero, a Sarah deveria mesmo era dar um ippon nesse cabra, pois ele tem as costas muito larga! E só fala água...

·         Chinês e norte-americano, quando tira o segundo lugar, reclamam. Brasileiro se conforma em viajar, ver Londres, passear e tirar fotos. Tudo isso com dinheiro público ou das empresas alheias!

·         Há inversões de esporte nesta Olimpíada de Londres. O jogador Lucas corre, Diego Hypólito salta com a vara e Neymar nada.

·         Quando a seleção brasileira de futebol feminina foi eliminada, Robert Scheidt acendeu uma vela para o Brasil.

·         Na próxima Olimpíada, Rubinho Barrichello vai disputar o hipismo. Explicação: é pra ver se ele anda mais rápido.

·         O cavalo do Rodrigo Pessoa caiu na água.

·         Brasileiro é medalha de ouro em malandragem. Erra o salto e ainda diz que a culpa é da vara!

·         Se bem pensarmos, é melhor não mandarmos mais as nadadoras brasileiras para as Olimpíadas. Elas nadam, nadam e nada. É uma forma de gastar menos dinheiro e evitar “dar com os burros n’água”!

·         Na próxima Olimpíada a prova de Michael Phelps será no Oceano Atlântico.

·         Se malandragem e corrupção fossem esportes olímpicos, não aceitariam o Brasil participar das Olimpíadas. Mas também seria covardia, convenhamos!

·         Dizem que o Brasil nas olimpíadas está jogando um futebol-arte. Só se for arte paleolítica: feita de pedra, sem movimento, imperfeita e dura.

·         Sarah Menezes, primeira mulher a ganhar medalha no judô brasileiro, sempre teve dificuldades de dar prosseguimento a sua carreira por falta de apoio. Depois que a menina conquistou a medalha olímpica, o governador do Piauí ergueu outdoors, fez solenidade e prometeu investir na carreira da judoca. Moral da estória: O governador é um imoral!

·          Verdade seja dita: quando um artista ou um esportista depender de dinheiro do Governo do Piauí é porque sua carreira já está entrando em decadência....Segue sua estrada Sarah Menezes!

·         Dizem as más línguas que Sarah Menezes quase dispensa o convite do governador do Piauí, que organizou uma recepção para ela no Palácio de Karnak. O medo dela era que sua medalha de ouro “sumisse”...



domingo, 20 de fevereiro de 2011

notas de passagem VII


(Mafalda. Quino)




CONTRA DITADOS I

(Alfredo Werney)

“Dinheiro não traz felicidade”. E o que traz então? As dívidas?

“Ele leva a vida na flauta”. A flauta é dos instrumentos de embocadura e afinação dos mais difíceis de executar. Não há nada de fácil e nem leve em viver a vida tocando flauta ...


“A pessoa vale é o que ela é e não o que ela tem. Uma mentira que ajuda a confortar os pobres. Basta ir numa clínica médica particular de pé e mal arrumado e verás que não vai ser lembrado pelo que você é.

“Correr atrás do prejuízo”. Estranho! Quem gostaria de estar sempre de mão dadas com o prejuízo?

“Deus ajuda quem trabalha”. Errado. Geralmente quem recebe mais ajuda são os patrões que não trabalham, nem precisam acordar cedo, nem pegar quatro conduções por dia.


“Quem não vive para servir, não serve para viver.” A verdade é que é bem melhor ser servido do que servir aos outros. O altruísta sofre de falta de amor próprio! Eu gosto mesmo é dos “que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem...”*

“Eu era feliz e não sabia”. Mentira. Nunca fomos felizes. Passamos por breves momentos de felicidade. O resto é uma narrativa sem nexo e repleta de constantes dissabores. E é sempre mais fácil achar que o passado é melhor do que o presente.


“Eu que me queixava de não ter sapatos, encontrei um homem que não tinha pés”. Grande coisa essa: devo me conformar por ver que as desgraças alheias são maiores do que as minhas. “Estou mal, mas meu amigo ainda está pior do que eu, logo devo ficar bem”. Isso cheira a perversão...

“Quem não tem cão caça com gato”. Um dia vi um político corrupto usar esta expressão para falar do jogo de cintura que se deveria ter, segundo ele, para resolver os problemas do Brasil. Uma saída tipicamente brasileira: “a gente dá um jeitinho e resolve tudo”. Num país sério não precisa se caçar com gatos, pois há de haver muito cães...


“Diga com quem tu andas que direi quem és”. Nem sempre é assim. Certa vez vi um político corrupto e inescrupuloso que tinha como amigo o Maluf.


“Fulano é pau pra toda obra”. A verdade é que há obras, que de tão imensas, não servirá qualquer pau. Ou melhor, um pau qualquer...

“Fulano é tão mentiroso e enrolado. Ali é um verdadeiro artista...”. Não façam isso com os artistas, que tornam a experiência humana mais bela e mais intensa! Quando quiserem chamar alguém de “vagabundo, safado e mentiroso” chame-o mesmo de “vagabundo, safado e mentiroso”.

“Chegar ao fundo do poço”. Uma expressão kitsch, de mau gosto. Porém, muito profunda...


“Filho de peixe, peixinho é”. E o que dizer da Preta Gil? Muitas vezes de um bom peixe nasce uma ovelha desgarrada..

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“Conhece-te a ti mesmo”. Isso é pura bobagem, pelo menos no Ocidente. Quanto mais nos conhecemos, mais nos decepcionamos. Conhecer a si mesmo pode ser algo muito perigoso e trágico! É bem melhor que não saibamos nada sobre nós...


“Essa é a minha opinião e ponto final”. Na verdade, a opinião nunca é sua. São retalhos de outros pensamentos. Muita gente usa esse argumento, na realidade, como “falta de argumento”. “Ah, eu penso assim!” Quem somos nós afinal para ter tamanha autoridade e achar que nossa opinião está acima de tudo? Acaso somos Shakespeare? Jesus Cristo? Platão? Aristóteles?


“Gosto é que nem [...], cada um tem o seu”. E cada um fede da sua maneira...


“Os golfinhos são tão bonzinhos”. A natureza não é boa nem má. Ela é simplesmente “natureza”. Bom e mal são conceitos humanos, não servem para outros animais. Nem para nós mesmos, na verdade...Isso é puro pretexto para que nós, humanos, dominemos os animais!


“O importante é a beleza interior”. Totalmente errado, do ponto de vista filosófico. A beleza nada tem a ver com a “interioridade”. A beleza sempre é a pura aparência, o exterior. Beleza não tem conteúdo, tem impacto sinestésico. Ao te dizerem isso, na verdade estão querendo dizer: “Você é feio, mas, mesmo assim, eu te suporto”...


“Depois da tempestade, vem a bonança!” Nunca vi, para ser sincero, tempestade trazer nada de bom. Depois da tempestade, na realidade, geralmente vem uma tempestade maior ainda...


“Um calado cabe em qualquer lugar”. Porém não insistamos sempre em calar. O silêncio é visto sempre como uma atitude sábia, “chique”. Na realidade, muitas das vezes, é falta mesmo do que dizer...


A vida é uma escola”. Certamente uma escola do estado do Piauí: sem cadeiras, sem ventilador, sem livros, sem professor e sem nada...


“Sorria pra vida. Ela também lhe sorrirá...” Sim. Resta dizer que o riso é banguela e sem graça.


“Não dá pra definir com palavras”. E como definiremos se não com palavras? As palavras fundam a realidade, não apenas falam sobre ela...


“Atrás de um grande homem sempre tem uma grande mulher”. Geralmente a mulher do vizinho...


“Quem brinca com fogo pode se queimar”. Triste seria brincar com fogo se soubéssemos que ele nada nos causaria. Não haveria razão para se brincar. A poesia está exatamente no perigo, nos extremos, na incerteza...



* trecho de Adriana Calcanhoto

terça-feira, 26 de outubro de 2010

notas de passagem VI


NOTAS DE PASSAGEM: ALGUNS ESPINHOS


Por Fred Torres


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A eleição do Tiririca é uma demonstração de nossa fragilidade e falta de crédito na política. Nessa sociedade dita “pós-moderna”, perdemos realmente a capacidade de sermos inteligentes. Nós estetizamos até mesmo a política... Aliás, esta nos parece mais estetizada do que a própria produção artística. Cada vez mais as propagandas políticas são carregadas de recursos cinematográficos, trilhas sonoras expressivas, iluminação menos natural e mais emotiva, maquiagem exacerbada, angulações de câmeras menos documentais e políticos que são verdadeiros personagens fílmicos. Parece-nos realmente um curta-metragem de ficção. Outras propagandas fazem da falta de recurso uma “comédia pastelão” de quinta categoria, como a campanha do famigerado Quem Quem, em Teresina. Eis o problema da Democracia: permite com que um Tiririca se eleja. “Pior do que tá vai ficar”

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O Brasil é um dos poucos países do mundo em que um bandido sai da cadeia e vai direto para o Congresso Nacional. Desconfio, entretanto, que nas cadeias encontremos pessoas mais leais e justas do que em nosso Congresso.

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Há um abismo entre Dilma e Serra. O mesmo abismo que há entre as últimas janelas de dois prédios vizinhos. Estão distantes, embora muito próximos.

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Há boas perspectivas para a política cultural do Brasil no próximo governo: de um lado a visão tacanha dos tucanos, para quem a cultura se torna um espaço de técnicos especializados e é incentivada na medida em que ela gera lucro para os cofres do governo (ou do capital estrangeiro?!); de outro, a cultura é vista como um espaço das minorias tocarem tambores e exibirem sua cor nas favelas e nas zonas marginais.

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No Piauí, a esposa de um famoso político achou que seria melhor não incentivar financeiramente um dos mais tradicionais festivais de arte santeira da cidade. Ela alegava o fato de que se tratava de um culto a imagens religiosas. Ela, como era evangélica, não aprovava a realização do festival com recursos estatais. Desconfio que se uma mula dessas fosse presidenta, ela mandava retirar dos livros de Arte todas as imagens que estivessem relacionadas ao sagrado. O que nos restaria?

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Um dos slogans da Fundação de Cultura do nosso estado é “A cultura é presente”. Esse trocadilho de profundo mau gosto diz muito sobre a política cultural desenvolvida nestes anos. A cultura para nossos gestores é apenas um presentinho: desses que a gente compra nas lojinhas bregas de 1.99 e dá, de ano em ano, aos parentes chatos.

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Muita coisa se fez pela cultura do nosso Brasil nestes últimos anos. Já conseguimos até mesmo fabricar tambores de couro e panelinhas de barro.

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O governo não tem 1 real para incentivar a produção cinematográfica de nossos jovens e sonhadores cineastas do Piauí, mas dá milhões para a produção de um filme sobre a vida do Frank Aguiar. Não tenho nada contra o Frank Aguiar (ele até me parece uma boa pessoa), mas sou contra a produção de porcaria incentivada pelo estado. Mas afinal, isso é a democracia, não é? Um sistema que iguala Villa-Lobos a Amado Batista.

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Muitas críticas foram feitas à política cultural do Piauí e, especificamente a de Teresina. A maioria das críticas que li são sem fundamentação e mal feitas. Mas valeram a pena, pois são do contra...

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A maneira mais fácil de um artista entrar em decadência na atualidade é ele participar dos eventos artísticos organizados pelo Estado. Além de não receber dinheiro, ele está demonstrando que sua arte não vai lá muito bem das pernas...

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Os nossos grandes pensadores da cultura piauiense puseram no regulamento do projeto musical “Boca Da noite”, a obrigatoriedade de (no mínimo) 60% de músicas “piauienses” no repertório. Quer dizer: o critério deixou de ser estético para ser geográfico. Um artista que desenvolver um belo projeto musical sobre Noel Rosa ou um recital com peças de Bach, automaticamente estará eliminado. Mas tudo bem, eu entendo: afinal Noel não teve muita importância para MPB, nem Bach para a música erudita.

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Assisti ao filme “Lula, filho do Brasil”, e fiquei impressionado. Pareceu-me, de fato, um filme de super herói (de quinta categoria, diga-se). A diferença é que esses filmes de super-heróis são mais bem feitos tecnicamente, além de serem mais divertidos.

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Ouvi, numa recente palestra, um ilustre piauiense dizer que devíamos trocar o iogurte pela coalhada e o beiju, que são “coisas nossas”. Entendi, através destas sábias palavras, que o sujeito que come iogurte está se despiauiensesando (desculpe-me o mau gosto do neologismo). Se um cidadão desses fosse um dia governador do estado, não tenho dúvida que comer petit gauteau seria considerado um crime hediondo...


OBS: Algumas dessas notas foram levemente inspiradas na "Bíblia do Caos", de Millôr Fernandes.

domingo, 5 de setembro de 2010

notas de passagem

(tela de Kandinsky)



DISSIONÁRIO II

(Por Alfredo Werney)


Crítico de arte - pessoa destinada a explicar o inexplicável.

Crepúsculo - momento em que “o sol celebra o suicídio da tarde”. (colhido em H.Dobal).

Poesia romântica - diz-se da poesia em estado líquido.

Poesia engajada- o mesmo que poesia enganada.

Kandinsky- música atonal escrita com tintas.

MPB atual - música pra pular brasileira.

Arte de Vanguarda- Diz-se das artes cujos manifestos são mais importantes do que as obras produzidas.

Borboleta - “uma flor que voa” (colhido em Guy de Maupassant)

Futurismo- empresa veloz de fabricar manifestos artísticos.

Artista de vanguarda- Diz-se do artista ultrapassado.

Perfume- poesia que se cheira.

Esquadrilha da fumaça- literatura escrita no céu.

Igreja- lugar mais distante para se encontrar com Deus.

Van Gogh – artista holandês que esculpe com tintas.

Jorge de Lima- uma orquestra sinfônica de palavras.

Músico- um ser que lambe os sons e se alucina (baseado em Manoel de Barros)

Akira Kurosawa- pintura que se movimenta.

Ronaldo Nazário- Garry Gasparov traduzido em termos futebolísticos.

François Truffaut- artista francês que fala pelos olhos.

Cabaré (Eco)- habitat natural do homo casadus.

Casamento- a maneira mais fácil de duas pessoas ficarem distantes uma da outra.

Pagode (Med)- doença crônica que atinge a membrana timpânica do ouvido, provocando sensações de mal estar, vômitos e dor de cabeça.

Jogador de futebol- homem altamente treinado para falar com os pés.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

notas de passagem


DISSIONÁRIO I

( Por Alfredo Werney)



Garrincha – poeta que escreve com os pés.

Mestre Dezinho – um fabricante de feiúras belas.

Concretismo – Movimento literário brasileiro que confundiu poesia com artes plásticas.

Poeta engajado – Espécie de poeta que escreve em prosa e entende a linguagem literária como um meio e não um fim.

Semiótica – um tipo de ciência que vê apenas com um olho.

Crítica literária- o caminho mais longo para quem deseja entender literatura.

Poesia concreta- Diz-se da poesia em estado sólido.

Dicionário - livro que esconde o sentido verdadeiro das palavras.

Andrei Tarkovski- poeta que escreve com fotogramas.

Arnaldo Antunes- compositor popular cuja música pode ser vista com os ouvidos.

Manoel de Barros – poeta que desexplica as coisas.

Claude Monet – uma tradução de Debussy para a linguagem visual.

Invenção de Orfeu – Richard Wagner escrito em versos.

Cecília Meireles – uma fábrica de fazer versos bonitos.

Mulher inteligente- uma espécie rara de mamífero (atualmente em extinção).

Dunga – O maior técnico de futebol americano da história do futebol brasileiro.

Felipe Melo (Zool) – uma espécie de ruminante que tem por preferência a grama de certos estádios de futebol.

Livro de auto-ajuda – livro escrito para ajudar financeiramente aquele que escreve.

Psicanálise- área do conhecimento que estuda o comportamento de Freud.

Música- uma escultura composta de sons.

Swingueira – o último estágio de uma pessoa viciada em drogas.

Flamengo- Ver “Comando Vermelho”.

domingo, 28 de março de 2010

notas de passagem

Nerival Rodrigues (óleo sobre tela. São Paulo)

NOTAS SOBRE FUTEBOL I*


Alfredo Werney


Quem se refere a uma partida de futebol como “vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola”, certamente dirá que uma tela de Kandinsky não passa de “um amontoado de borrões”. Olhar uma partida de futebol é como olhar uma obra de arte: exige de nós um espírito aberto à gratuidade estética, à imaginação e ao não-pragmatismo.

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Pasolini, notável cineasta italiano, dizia que o futebol brasileiro, diferente do europeu, era jogado “poeticamente”. Os dribles, as gingas, a imprevisibilidade das jogadas, a concentração não apenas no resultado, mas no processo, tornava nosso futebol bem próximo de uma produção poética. Atualmente – com a direção de um técnico bruto e sem nenhuma elegância, que visa tão-somente a otimização do rendimento – nosso futebol não passa de uma prosa enfadonha com raríssimos momentos poéticos.

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Para quem não ver a poesia transcendente das quatro linhas de um campo de futebol, resta apenas falar de seu poder de alienação. E de fato, sabemos, há sim alienação nesse esporte. Mas deixar de olhar a beleza de uma partida para ver somente alienação, é “pisar na bola”. É como deixar de ver a beleza do cinema norte-americano para olhar apenas as suas possíveis ideologias: um vício chato daqueles marxistas mais tradicionais e menos aberto às transformações do mundo. O futebol é uma linguagem e deve também ser visto por “dentro”, não só por “fora”.

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Chico Buarque é o compositor brasileiro que melhor se expressou sobre o nosso futebol. Suas canções são chutes certeiros. Elas não apenas falam do futebol, elas falam futebolisticamente. Ao ouvirmos suas canções sentimos que as palavras driblam, gingam; os trocadilhos, os efeitos fônicos, as inversões frasais vão e voltam em elipses, como as jogadas de Garrincha.

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Ronaldo, uma bola em campo, vê o que está para além de seu raio de visão. Prova que futebol não é tão-somente uma atividade corporal, mas, em grande parte, uma atividade mental. O jogador prevê várias jogadas, movimenta-se para onde a bola não está, lança bolas em espaços aparentemente vazios. Sua péssima forma física é compensada por uma mente que age tão rápida e precisamente como a de um Garry Kasparov ao jogar xadrez.

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O melhor drible, segundo alguns, é aquele que, paradoxalmente, não se realiza. Uma elipse poética, uma supressão temporal. Aquele drible em que o jogador dança e gira em torno da bola, mas ela permanece inerte. Ronaldo, em um jogo pela Copa do Brasil de 2009, fez um jogador vascaíno cair no chão. Nazário, certamente inspirado em Garrincha, nem sequer tocou a bola. Essas coisas fazem do futebol não apenas um jogo de resultados (como a maioria dos esportes), mas como um jogo que se volta sobre si mesmo. Um campo onde se mesclam gratuidade e pragmatismo, força e inteligência. Um esporte cujo tempo não é linear, cronológico.

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Nunca ouvi nenhum técnico de vôlei ou basquete dizer “Perdemos, mas jogamos melhor”. Para o futebol isto é perfeitamente possível. Há sempre nele a dimensão do imponderável, do acaso, da não-linearidade.

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Há pessoas que não gostam de futebol, mas vêem algo de bom no esporte. Outras não gostam, simplesmente. Há ainda os que não gostam e fazem campanha contra ele. A verdade é que até mesmo os apreciadores, em sua maioria, não vêem muita inteligência em um jogo de futebol. Compreendem-no apenas como um momento de catarse e de alegria, um mecanismo de fuga de um cotidiano árduo. Eu prefiro acreditar nas magníficas palavras de Nélson Rodrigues: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana”.

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Vivemos numa época de extrema burrice no jornalismo esportivo. Parece mesmo, como atestava o grande Nélson Rodrigues, que “toda unanimidade é burra”. Basta ligar e a TV e as notícias são unânimes: fala-se mais nas mulheres de Ronaldo, nos porres de Adriano, nas atrapalhadas de Wagner Love, nos bacanais de Ronaldinho Gaúcho, do que propriamente em futebol. “Revelar a arte, ocultar o artista”, as palavras de Oscar Wilde deveriam ser aplicadas ao futebol.



* inspirado em "Veneno Remédio: o futebol e o Brasil", de José Miguel Wisnik

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

notas de passagem

(Notas sobre o cinema atual)

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Certamente “O Anticristo”, de Lars Von Trier, é uma das obras cinematográficas mais bem realizadas de 2009. Há nessa película um conjunto de símbolos, um misto de desejo e dor, culpa e catarse, que há muito tempo não víamos. É claro que, em alguns momentos (como no prólogo), observamos certo virtuosismo do diretor, que pode parecer, para alguns, exibicionismo desnecessário. Mas para outros, como eu, trata-se de um momento de nos deleitarmos com a força simbólica e poética da câmara e das metáforas construídas. É cinema em estado “puro” (na falta de um termo mais adequado). Alguns condenam esse tipo de arte que busca uma sensação primeira, um impacto, um deslocamento do interlocutor. Há quem chame tudo isso de esteticismo gratuito. Será? Não seria este tal “esteticismo gratuito” a função primeira da arte?

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Fui ao cinema hoje para assistir ao filme “Lula, o filho do Brasil”. Eu pensava que o filme era sobre o Lula, nosso presidente, mas – logos nas primeiras tomadas – percebi que estava vendo um filme (melhor seria dizer um melodrama biográfico mal realizado) sobre um super-herói, sobre um personagem sobrenatural. A diferença é que os filmes de super-heróis geralmente são bem feitos tecnicamente, ainda que repleto de clichês cansativos. O filme do Lula, além de ser mal feito, endossa a visão tacanha e positivista de que uma sociedade democrática é construída, não a partir do coletivo, mas sim através dos grandes líderes que salvam a pátria com seus poderes extra-terrêneos. É um filme que, ainda que seja discutido como uma mera propaganda política em vésperas de eleição, não passa da linha da mediocridade. Tudo gira em torno de se conseguir comover o público com a estória piegas de um nordestino batalhador que conseguiu “subir na vida” por ser persistente. O filme busca despertar emoções fáceis, sentimentos patrióticos – elementos típicos de um cinema feito para um espectador que procura ver-se na tela (“Sou nordestino e trabalhador como Lula, logo posso “crescer na vida também”) sem ter que pensar sobre o que se passa ali. Em suma: trata-se de uma obra composta para quem não vai ao cinema ver cinema.

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“Quem quer ser um milionário” (música composta por A. R. Rahman) ganhou o Oscar de Melhor Música. Ennio Morricone nunca ganhou um Oscar, mas é autor basilar na história da música de cinema. Possivelmente, ao lado de Bernard Herrmann, é um dos trilhistas mais imitados em toda a história do cinema. Quem esquece as irônicas intervenções musicais de seus westerns? Quem não se comove com aquele oboé profundo e sentimental de “A missão”? Quem ver “Cinema Paradiso” e não sai cantarolando pelo menos um de seus temas? Ainda há gente que atesta a qualidade de um artista pelo número de Oscars que ele recebeu...

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“Desejo e Reparação” (2007) possui uma das melhores trilhas sonoras destes últimos anos. Não se sabe – ao ver e ouvir essa película – o que é exatamente som ambiente, música e fala. Todos estes elementos se harmonizam e convertem-se em uma magnífica sinfonia. Os ruídos de uma máquina de escrever viram música percussiva; os ataques dos tímpanos substituem ruídos do ambiente; a música extra-diegética se transforma, sem quebrar a fluência sonora, em música diegética. E não estamos falando de melodias e ritmos complexos. O tema do filme é simples: uma sucessão de poucas notas que são executadas, na maioria das vezes, por piano e cordas. É algo mais que sublime o modo como são articulados os elementos da trilha sonora de “Desejo e Repação”. Dário Marianelli (compositor italiano), além de ter transpirado bastante, estava numa época de enorme inspiração [palavra rara ao falarmos de música de cinema atual]...


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As cenas que mais me chocaram no cinema foram três:

i- O olho vazado em “Um cão andaluz”, de Luís Buñuel

ii- O clitóris decepado em “Anticristo”, de Lars Von Trier

iii- O esfaqueamento de Márion Crane em “Psicose”, de Hitchcock

Não há terror, por demais barato, que consiga atingir tamanha violência aos nossos olhos. De nada vale nos mostrar cabeças decepadas, rios de sangue, pedaços de soldados em guerra. O impacto que a imagem provoca não depende dela em si. Depende da maneira como os elementos do discurso fílmico estão articulados entre si. Quem assiste a um filme como “Rambo IV” já espera ver cenas chocantes, pois é somente isto o que o diretor tem a nos oferecer. De tão gratuitamente chocantes as cenas já não chocam mais. O impacto que sentimos ao ver as três cenas acima citadas se dá, em grande parte, pela mestria que os diretores possuem (cada um à sua maneira) ao conduzir uma ação dramática...


Alfredo Werney