sábado, 3 de abril de 2010

miniaturas VIII


A MOENDA, POEMA DE DA COSTA E SILVA

Por Alfredo Werney

Na remansosa paz da rústica fazenda,
à luz quente do sol e à fria luz do luar,
vive, como a expiar uma culpa tremenda,
o engenho de madeira a gemer e a chorar.

Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
e, ringindo e rangendo, a cana a triturar,
parece que tem alma, advinha e desvenda
a ruína, a dor, o mal que vai, talvez, causar...

Movida pelos bois tardos e sonolentos
geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

Ai, dos teus tristes ais, ai, moenda arrependida
- Álcool! para esquecer os tormentos da vida
- e cavar, sabe Deus, um tormento maior!

(Da Costa e Silva)

Da Costa e Silva é efetivamente um dos poetas mais musicais da nossa literatura. A forma como constrói os seus versos, faz do poeta piauiense um autor muito próximo da literatura simbolista, na qual se observa uma primazia pela musicalidade eufônica e o uso constante de figurações no som. No poema “A moenda”, retirado do seu livro “Zodíaco”, ele nos exibe um raro virtuosismo literário, principalmente no que se refere aos componentes fônicos da construção do verso. Quando comecei a me interessar pelo estudo da melopoetica (ou seja, dos aspectos musicais da construção do texto literário), logo percebi que a leitura dos poemas de “Zodíaco”, e mesmo de outras obras do mesmo autor, era de grande valor para se compreender a interessante e complexa relação entre música e literatura.

Em “A Moenda”, o primeiro recurso que nos chama a atenção é a repetição insistente da consoante alveolar r. Esta consoante cria um efeito fônico muito sugestivo, já que está presente em grande parte dos versos. O ruído simboliza a sonoridade ríspida da moenda, o seu “choro” e “gemido”, como nos diz o poeta. O efeito onomatopaico fica mais claro na segunda estrofe:

Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;

e, ringindo e rangendo, a cana a triturar

O ritmo fônico deste verso é gerado pela sonoridade constante da consoante vibrante r e da fricativa g. Em relação ao uso das vogais, observamos que a seqüência das nasais imprime no texto um ritmo arrastado e uma sonoridade mais fechada. Vejamos também que a pontuação (vírgula e ponto-e-vírgula) contribui mais ainda para engendrar a sensação de lentidão do poema. A cadência rítmica criada sugere o próprio movimento de uma moenda, “movida pelos bois tardos e sonolentos”.

“A Moenda” é um poema cujo ritmo e sonoridade, a todo o momento, nos proporcionam uma sensação de dureza, de cansaço. Os adjetivos e substantivos escolhidos pelo poeta estão intimamente concatenados com os elementos estruturais: Tristes, arrependida, sonolentos, doridos lamentos, ruína, dor, desgraça. Observamos que o escritor procura harmonizar o ritmo fônico com a semântica, o que dá unidade ao texto poético.

Da Costa e Silva nos apresenta – através de uma linguagem rica em efeitos onomatopaicos, assonâncias e aliterações – uma moenda personificada, que geme, chora e parece ter alma. Esta musicalidade que simboliza a própria “coisa representada” no poema, como é o caso de “A Moenda” e dos poemas da Fauna, é comum a encontrarmos na obra do escritor piauiense. Muito mais que “um poeta telúrico que canta as belezas de sua terra natal”, Da Costa e Silva é um arquiteto do verso, um engenheiro que experimenta incansavelmente as potencialidades musicais da palavra.

domingo, 28 de março de 2010

notas de passagem

Nerival Rodrigues (óleo sobre tela. São Paulo)

NOTAS SOBRE FUTEBOL I*


Alfredo Werney


Quem se refere a uma partida de futebol como “vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola”, certamente dirá que uma tela de Kandinsky não passa de “um amontoado de borrões”. Olhar uma partida de futebol é como olhar uma obra de arte: exige de nós um espírito aberto à gratuidade estética, à imaginação e ao não-pragmatismo.

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Pasolini, notável cineasta italiano, dizia que o futebol brasileiro, diferente do europeu, era jogado “poeticamente”. Os dribles, as gingas, a imprevisibilidade das jogadas, a concentração não apenas no resultado, mas no processo, tornava nosso futebol bem próximo de uma produção poética. Atualmente – com a direção de um técnico bruto e sem nenhuma elegância, que visa tão-somente a otimização do rendimento – nosso futebol não passa de uma prosa enfadonha com raríssimos momentos poéticos.

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Para quem não ver a poesia transcendente das quatro linhas de um campo de futebol, resta apenas falar de seu poder de alienação. E de fato, sabemos, há sim alienação nesse esporte. Mas deixar de olhar a beleza de uma partida para ver somente alienação, é “pisar na bola”. É como deixar de ver a beleza do cinema norte-americano para olhar apenas as suas possíveis ideologias: um vício chato daqueles marxistas mais tradicionais e menos aberto às transformações do mundo. O futebol é uma linguagem e deve também ser visto por “dentro”, não só por “fora”.

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Chico Buarque é o compositor brasileiro que melhor se expressou sobre o nosso futebol. Suas canções são chutes certeiros. Elas não apenas falam do futebol, elas falam futebolisticamente. Ao ouvirmos suas canções sentimos que as palavras driblam, gingam; os trocadilhos, os efeitos fônicos, as inversões frasais vão e voltam em elipses, como as jogadas de Garrincha.

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Ronaldo, uma bola em campo, vê o que está para além de seu raio de visão. Prova que futebol não é tão-somente uma atividade corporal, mas, em grande parte, uma atividade mental. O jogador prevê várias jogadas, movimenta-se para onde a bola não está, lança bolas em espaços aparentemente vazios. Sua péssima forma física é compensada por uma mente que age tão rápida e precisamente como a de um Garry Kasparov ao jogar xadrez.

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O melhor drible, segundo alguns, é aquele que, paradoxalmente, não se realiza. Uma elipse poética, uma supressão temporal. Aquele drible em que o jogador dança e gira em torno da bola, mas ela permanece inerte. Ronaldo, em um jogo pela Copa do Brasil de 2009, fez um jogador vascaíno cair no chão. Nazário, certamente inspirado em Garrincha, nem sequer tocou a bola. Essas coisas fazem do futebol não apenas um jogo de resultados (como a maioria dos esportes), mas como um jogo que se volta sobre si mesmo. Um campo onde se mesclam gratuidade e pragmatismo, força e inteligência. Um esporte cujo tempo não é linear, cronológico.

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Nunca ouvi nenhum técnico de vôlei ou basquete dizer “Perdemos, mas jogamos melhor”. Para o futebol isto é perfeitamente possível. Há sempre nele a dimensão do imponderável, do acaso, da não-linearidade.

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Há pessoas que não gostam de futebol, mas vêem algo de bom no esporte. Outras não gostam, simplesmente. Há ainda os que não gostam e fazem campanha contra ele. A verdade é que até mesmo os apreciadores, em sua maioria, não vêem muita inteligência em um jogo de futebol. Compreendem-no apenas como um momento de catarse e de alegria, um mecanismo de fuga de um cotidiano árduo. Eu prefiro acreditar nas magníficas palavras de Nélson Rodrigues: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana”.

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Vivemos numa época de extrema burrice no jornalismo esportivo. Parece mesmo, como atestava o grande Nélson Rodrigues, que “toda unanimidade é burra”. Basta ligar e a TV e as notícias são unânimes: fala-se mais nas mulheres de Ronaldo, nos porres de Adriano, nas atrapalhadas de Wagner Love, nos bacanais de Ronaldinho Gaúcho, do que propriamente em futebol. “Revelar a arte, ocultar o artista”, as palavras de Oscar Wilde deveriam ser aplicadas ao futebol.



* inspirado em "Veneno Remédio: o futebol e o Brasil", de José Miguel Wisnik