sábado, 2 de abril de 2011

"DE VOLTA PARA O ACONCHEGO"





PIAUIENSES SE APRESENTAM HOJE NO CLUBE DO CHORO DE BRASÍLIA


O show musical “De volta para o aconchego”, com o sanfoneiro Sivuquinha de Brasília e convidados (direção musical de Alfredo Werney e produção de Dimas Bezerra) foi apresentado no mês de fevereiro em Teresina-PI, no Espaço Cultural “Mamulengo” e no teatro “João Paulo II”. A sanfona e o talento de Sivuquinha – juntamente com outros importantes músicos do Piauí – repercutiram de tal forma que o show se expandiu até a capital do país. Hoje, dia 2 de abril, a partir das 21 horas, “De volta para o aconchego” será apresentado no “Clube do Choro de Brasília”, um dos mais tradicionais espaços culturais do Brasil. O violonista do Piauí, Alfredo Werney, está auxiliando na direção e montagem do show. A cantora piauiense Silvana Ferreira também participará do evento musical, que já vendeu praticamente todos os ingressos e está em destaque nas páginas culturais dos mais importantes jornais da cidade (Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Comunidade, etc). Os componentes do grupo são: , Daniel Pitanga (violão), Alfredo Werney (violão), Allan Cruz e Aloísio César (voz), Renato Vieira (percussão), Manoelzinho (acordeon) e Sivuquinha (acordeon). Entre os componentes, quatro são do Piauí. Na verdade, será uma noite “piauiense” em Brasília.


( Vida Cultural Produtora/ Brasília -DF)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Elis Regina


ELIS ALÉM DA EXPRESSÃO

(Por Alfredo Werney)

Quando falamos de um artista que admiramos em demasia, muitas vezes somos movidos por uma paixão desenfreada. E esta paixão faz com que não admitamos determinadas críticas desfavoráveis ao nosso ídolo. Eu, particularmente, não sou, de maneira alguma, contra os comentários e críticas apaixonados. Acho que deve haver, realmente, um envolvimento emocional ao analisarmos a obra de um artista, mas este envolvimento não pode nos cegar.

No Brasil há artistas que, de tão amados e reverenciados, as pessoas não aceitam qualquer comentário que vá de encontro à opinião da maioria. Creio que estão nesse rol: Chico Buarque, Carlos Drummond, Roberto Carlos, Dorival Caymmi e, acima de tudo, Elis Regina – que completaria, neste mês de março, 66 anos de idade. Certa vez, quase fui expulso de um conhecido bar de Teresina, porque, naquela ocasião, dizia que não apreciava muito uma determinada canção na voz da artista. Não é que eu não gostasse da cantora gaúcha, mas é que observava, naquela interpretação, inúmeros equívocos musicais. O mais desinformado interlocutor musical sabe que ela canta afinado, pronuncia bem as palavras, imprime emoção à música, encanta o público. É difícil discordar de tudo isso, mas muita coisa passa-se despercebido por boa parte dos apreciadores. Talvez por falta de um ouvido mais apurado ou porque, simplesmente, seguem a opinião dos meios de comunicação e da massa, para quem Elis é, indiscutivelmente, “a maior cantora do Brasil”.

Eu discordo da maioria do público e vou tentar me justificar sem me estender muito no assunto. Para que um cantor seja um grande intérprete não basta, tão-somente, ter uma voz bem colocada, afinada e de boa projeção. Exige, além disso, um conhecimento do texto musical, das sutilezas das letras, da concepção adequada dos arranjos, de harmonia, dentre outros. Elis Regina possui estas qualidades, mas, na maioria das vezes, passa por cima do texto musical para exibir seus vibratos exagerados e sua perfomance circense. Uma herança, de certa forma, do bel canto italiano. Sua interpretação é muito afetada e poluída de elementos desnecessários à compreensão do texto, como: ornamentos gratuitos, melismas sem necessidade, “explosões” vocais inadequadas. Ademais, sua movimentação no palco muitas vezes não condiz com o tipo de canção interpretada. Não é à toa que seus apelidos mais famosos são: “Elis-cóptero” (alcunha criada por Rita Lee) e “Pimentinha” (por Vinícius de Moraes).

É evidente que, em alguns casos, o modelo de interpretação elis-reginiana funciona muito bem. Quando ela interpreta canções que possuem uma inclinação mais dionisíaca e romantizada (não no sentido do Romantismo musical do século XIX), como Cartola e outros compositores de canções mais viscerais, pouquíssimas cantoras brasileiras atingem o seu nível de execução. Porém, ao interpretar algo mais apolíneo e menos retórico, como a bossa nova, Elis massacra o texto e o estilo musical em favor de sua persona. É importante reconhecermos, inclusive os mais fanáticos, que a gaúcha é extremamente personalista e este fato atrapalha sua musicalidade. Fato que não ocorre, por exemplo, com outras cantoras de mesma envergadura como: Leila Pinheiro, Sueli Costa, Ná Ozzetti, dentre outras. Sua própria filha, a cantora Maria Rita, retoma, de certa maneira, o seu modo de cantar. Contudo, é bem mais cuidadosa e evita essas interpretações auto-elogiosas e exageradamente emotivas. Não almejo, com tais argumentos, fazer juízo axiológico entre mãe e filha.

Seria injusto se eu não excluísse desses exemplos o primoroso disco “Elis e Tom”, de 1974. Nele, a cantora se conteve e interpretou (sem ataques histriônicos, diga-se) cada letra com o mesmo cuidado e a rara beleza que um grande artesão talha sua madeira para construir sua obra. A voz é bem afinada, o timbre equilibrado, as interpretações coerentes com espírito jobiniano. Este disco, que sem dúvida está entre os essenciais da MPB, é um de seus trabalhos mais refinados. Acredito que poucas cantoras chegariam ao mesmo resultado. Basta ouvirmos “Retrato em branco e preto”, de Tom Jobim e Chico Buarque, música repleta de cromatismos que dificultam a afinação vocal e a articulação da letra.

Retomando a questão central levantada: em minha opinião Elis Regina não é a maior cantora do Brasil de todos os tempos, como é aceito, sem nenhum questionamento, pelo Brasil inteiro. E os motivos foram citados anteriormente: ela se põe acima da música e do texto. Seu padrão de interpretação não funciona em muitas canções que escolheu para o seu repertório. Seu barroquismo e o espítito afetado, muitas das vezes, transformam (desnecessariamente) uma simples melodia em um verdadeiro “dilúvio musical”. Ela derrama demasiadamente suas emoções, ainda que o texto seja depurado e a melodia concentrada. É como declamar Mário Quintana, pensando no tom eloqüente da poesia de Jorge de Lima.

Augusto de Campos, conquanto tenha causado certo incômodo a alguns fãs acríticos da artista, não estava equivocado ao dizer que Roberto Carlos (embora do iê-iê-iê) se aproximava mais da linguagem da bossa-nova e da musicalidade de João Gilberto do que a cantora porto-alegrense – que, ironicamente, apresentava na TV o programa “O fino da bossa”. Nada mais apropriado – para versar sobre as interpretações de Elis – do que as palavras do poeta concretista: elas, em vez de expressivas, são, com constância, “francamente expressionistas”*.



* In: O Balanço da bossa e outras bossas. 3ªed. São Paulo: Perspectiva, 1978.

domingo, 27 de março de 2011

Caso Marauê


O AUÊ DE MARAUÊ: FÁBIO NOVO, FRANK AGUIAR E OS FALSOS HERÓIS DO JENIPAPO

(Por Alfredo Werney)
Revistas renomadas, sites famosos, blogs, cartas, TV, dentre outros. Confesso que nunca tinha visto uma simples banalidade provocar tamanha celeuma. Estou falando do famigerado “Caso Marauê”, como ficou conhecido nos meios de comunicação. O acontecimento: o ator coadjuvante Marauê Carneiro, da peça “Fica Frio”, postou no seu “Facebook” uma frase que dizia que Teresina era o “cu do mundo”. Em decorrência disso, a referida peça foi cancelada pelo político da Assembléia Legislativa do Piauí, Fábio Novo.
Algumas questões instigantes devem ser levantadas: Por que o assunto repercutiu tanto em nosso estado? Será se o fato tivesse ocorrido em outro estado teria repercutido da mesma maneira e intensidade? Ao atacarem com veemência o ator, os piauienses estão demonstrando o amor a terra ou se trata apenas de uma espécie de ressentimento ingênuo e bairrista? O ato de cancelar a peça teatral foi correto?
A primeira pergunta não é difícil de responder. O assunto teve grande repercussão em nosso estado por conta de haver muita gente oportunista querendo ganhar audiência e respeito através dos deslizes alheios. Certamente, temos muitas coisas mais importantes para serem discutidas em nosso estado: a péssima qualidade do ensino público, o dinheiro dos projetos culturais que foram desviados, os cachês de artistas que nunca foram repassados pelas fundações de cultura, a corrupção desenfreada dos nossos gestores, etc. Porém, este é um momento excelente para políticos salafrários, artistas em decadência e jornalistas medíocres pousarem de defensores da pátria. Verdadeiros heróis da “Batalha do Jenipapo”. Estes são os mesmos heróis que, na primeira oportunidade, saqueiam os cofres públicos sem nenhum remordimento.
Sobre a segunda questão levantada, eu acredito que o assunto não repercutiria com a mesma intensidade em outro estado do país. Criou-se, nesse lugar, um espírito de revolta que beira a burrice e a inocência. Duvido que um estado como São Paulo, Paraná ou Bahia tivesse se movido contra uma banalidade proferida por um artista medíocre e sem nenhuma expressão como o Marauê. Isso não é mais que uma baixa auto-estima disfarçada. Uma moral do fraco, como nos fala Nietzsche. Se estas questões ainda nos incomodam tanto é porque realmente nós, piauienses, sentimo-nos desimportantes. Alguém acreditaria que Chico Buarque, por exemplo, iria se revoltar se um músico diletante chamasse suas composições de lixo cultural? Não tenho dúvida de que Francisco não daria nenhuma atenção ao comentário, pois ele sabe a importância que sua arte tem para a história da nossa música popular.
Em relação ao terceiro questionamento, não me restam dúvidas. É puro bairrismo e ingenuidade do povo do Piauí. Nesse estado, em vez de fazermos política cultural séria, passamos todo tempo que existe atrás de forjar uma “piauiensidade”. Este discurso enfadonho está presente nas canções, nas peças teatrais, nos curtas-metragens, nos poemas e em tudo o que é produzido em nossa aldeia. E trata-se de uma atitude apoiada pelas instituições oficiais. Basta lembrar que no projeto musical “Boca da Noite”, pelos menos na gestão passada, era obrigação do músico tocar 60% de músicas “piauienses” no repertório, conforme o regulamento da FUNDAC (Fundação de Cultura do Estado). E para que serve mesmo esse rótulo de piauiense? Caetano e Gil não precisaram defender uma “baianidade” para se projetarem artisticamente. Ganharam notoriedade, acredito, pelo talento e a inteligência musical que ambos possuem. Imaginem Graciliano Ramos dizer: “Escrevo literatura alagoana”. Seria ridículo pensar de tal forma.
Para finalizar as questões, afirmo com veemência: sou contra o cancelamento da apresentação teatral. Vivemos em uma democracia e todos têm liberdade de expressão. Inclusive para dizer bobagens e idiotices, como fizera Marauê. A atitude de Fábio Novo é bem velha. Cheira a Ditadura e a Fascismo. E nesse caso, tenho que concordar com o direitista insosso da revista “Veja”, o Reinaldo Azevedo. Se tivermos que censurar todo espetáculo porque alguém criticou o Piauí, vamos exigir também que censurem todos os piauienses que chamam os baianos de preguiçosos, que chamam os gaúchos de “bichas” e os cariocas de malandros (no sentido ruim do termo). Lembremos do que o atrapalhado político do Piiiiiiiauí, Mão Santa, disse, preconceituosamente, ao anunciarem o primeiro transplante de coração do estado: "Nossos vizinhos maranhenses matam galinha preta, queimam vela e batem tambores na macumba. O pessoal daqui apela para os estudos científicos" (Revista Veja, 2001). E sabemos que muitos piauienses, possivelmente os mesmos que prometeram agredir o ator, devem ter rido à beça do comentário de Francisco de Assis Morais.
Uma coisa é importante que se diga: sou piauiense e estou certo de que o comentário do ator paulista foi infeliz e de profundo mau gosto. Mas isso não é motivo para se criarem polêmicas vazias que só fazem piorar a imagem do nosso cenário cultural e político – como fizera o cantor Frank Aguiar e alguns jornalistas insipientes que escrevem para conhecidos sites de Teresina. Sinceramente, amigos conterrâneos, acho que proibir a apresentação da peça foi muito mais feio do que a frase citada por Marauê.
Piauienses, não vamos nos iludir com esses falsos “Heróis do Jenipapo”, que estão interessados, na verdade, é em ter audiência nos meios de comunicação e se promoverem politicamente. Esqueçamos dos livros que retiram o mapa do estado, esqueçamos de comentários de empresários que acham o Piauí sem importância para a economia, esqueçamos de humoristas que brincam com nossa terra. Afinal, cada um tem o direito de se expressar e de dizer coisas interessantes ou asneiras. Não vamos endossar o discurso de políticos corruptos que fazem uma sessão na Assembléia para criticar a “Globo” pelo fato de uma piauiense não ter vencido o Big Brother. Não aumentemos, em nenhuma hipótese, a textura desse coro musical cheio de chauvinismos e ressentimentos.
Parece mesmo, como nos dissera o fabuloso filósofo e articulista Luiz Felipe Pondé, que vivemos em um mundo que, a todo o momento, mente sobre si mesmo. Aqui, no Brasil, estamos viciados (tal qual um usuário de crack em estado terminal) no discurso da igualdade, do respeito, da convivência com as diferenças. Não que tal discurso seja totalmente equivocado, mas é que ele se transformou em uma verdadeira “ditadura da coletividade”. Hoje, mais do que nunca, creio piamente nas palavras de Nélson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”.