sábado, 21 de maio de 2011

Chico Buarque

Felipe Cachopa (aqui )

DEIXEM CHICO BUARQUE EM PAZ!
(Alfredo Werney)

Millôr Fernandes nos disse, com razão, que Chico Buarque é a única unanimidade nacional. Do mais desinformado apreciador de música popular aos especialistas acadêmicos, o compositor carioca conquistou (diga-se, de modo meritocrático e não meramente por questões midiáticas) um enorme respeito e simpatia.
A música de Chico, embora composta com certo rebuscamento melódico e harmônico, soa-nos como algo familiar. Uma sonoridade que parece fazer parte do nosso cotidiano. As letras buarqueanas, conquanto sejam construídas com um rigor e uma coerência estilística exemplares, são, em sua maioria, claras e comunicativas. Quem não seria capaz de entender “A banda”, “A Rita”, “Meu caro amigo”, “Meu refrão”, além de outras?
Diante de tudo isso, há algo que, sinceramente, tem me irritado em demasia: Por que tanta literatura? Por que tanta teoria? Por que tanta sociologia? Será impossível ouvir uma canção de Chico pelo simples prazer estético? É possível que ouçamos suas músicas sem se “empanturrar” de teorias semióticas, sociológicas, lingüísticas, sociolingüísticas e sem procurar, antes mesmo do primeiro acorde do violão, engessá-lo em categorias?
E há tantas categorias como estrelas no céu: “O Chico político”, “O Chico revelador da alma feminina”, “O Chico poeta”, “O Chico do futebol”, “O Chico das múltiplas vozes dramáticas”, “O Chico malandro”, “O Chico trovador”, dentre outras. Mais parece que sua obra é um bolo confeitado para um aniversário de criança (perdoem-me a comparação de mau gosto): todo mundo quer o seu pedaço. E, assim, fatiamos uma obra que é rica exatamente porque coesa e possuidora de uma rigorosa unidade estilística.
Antes de qualquer coisa, Francisco Buarque de Hollanda é um compositor de sambas e canções populares. Não pretendo dizer que sua obra musical não tenha substrato para tantas análises. É evidente que o trabalho do artista carioca possui material para os mais diversos tipos de analistas. Mas por que a maioria deles nunca fala do “sabor” de uma canção buarqueana, do prazer de escutar um de seus sambas? Será que devemos sempre suplantar o prazer estético para que possamos analisar a obra de um artista?
Já tive a oportunidade de ler diversos trabalhos (dentre estes: teses de doutorado, dissertações de mestrado, artigos, ensaios, crônicas, etc) sobre Chico Buarque. Alguns deles me ajudaram, de fato, a compreender melhor as suas composições e mesmo a cultura brasileira. Confesso, entretanto, que a maior parte não me serviu de nada. O que pude observar é que, na maioria desses estudos (digo aqueles mais acadêmicos e extensos), encontramos centenas de páginas para discutir apenas uma determinada teoria. Quando chega o momento de abordar a obra de Chico, restam-nos apenas seis ou sete míseras páginas.
Às vezes, chego a duvidar que alguns desses críticos e estudiosos sequer tenham ouvido a obra do cantor de “A banda” com atenção e com o espírito liberto de tantos (pré) conceitos. Poucos escutaram Buarque “com açúcar e com afeto”. Mas para que gastar tempo apreciando canções? O que importa, para muitos, é o “embasamento teórico” – esta expressão enfadonha que nos faz lembrar aqueles estudantes medíocres elaborando projetos, às pressas, para se livrarem das disciplinas da universidade. É cada vez menor o número de textos escritos com beleza, paixão e que sejam também reveladores e esclarecedores. Cada vez é mais raro encontrarmos um Ruy Castro, um Fernando de Barros e Silva, um Luiz Felipe Pondé.
Espero, com tais argumentos, não causar nenhum mal entendido. Sei que é de grande valor o estudo e a análise da música popular. As teorias também são basilares: dão-nos um chão mais firme para caminharmos. Porém, a meu ver, as análises são uma etapa ulterior. É inadmissível que – antes mesmo da primeira batida do tamborim e do primeiro chacoalho do pandeiro – desenterremos os Karl Marx, os Greimas, os Freud, os Bakhtin. Claro está que estes e outros grandes pensadores nada têm a ver com o uso inadequado de suas teorias. Seria inútil dizer que eles são fundamentais para quem deseja compreender o mundo.
Nelson Rodrigues tinha razão (aliás, ele sempre teve) quando dizia que “o gênio tem, por vezes, a nostalgia do imbecil”. Muitas vezes precisamos nos tornar “burros” para entendermos as coisas de uma forma mais substancial. Ou melhor: precisamos delegar à inteligência um papel menos importante e deixar que as coisas passem primeiramente (e principalmente) pelos nossos sentidos. Os bons poetas – em especial Alberto Caeiro, Rimbaud, Baudelaire, Verlaine e Cruz e Sousa – realizam essa tarefa de maneira muito especial ao criarem seus poemas.
Talvez Chico Buarque, pelo o pouco que conhecemos de sua personalidade, fique muito mais satisfeito ao subir o morro e ver as donas de casa, os malandros e a meninada entoando uma de suas canções do que se deparar com um acadêmico (falo apenas daqueles chatos e não de todos) se debruçando horas a fio para analisar sua obra musical. Vejo que as duas experiências são válidas, contudo, a primeira (a escuta descompromissada e apaixonada) não recebe a devida atenção. Se bem observarmos, como diria o próprio Francisco: “Tem mais samba nas mãos do que nos olhos”, “Tem mais samba no chão do que na lua”.
Uma vez perguntei, com certa dose de ironia, a um professor do curso de Música – após uma cansativa análise harmônica de uma peça musical erudita: “O senhor gostou da música?”. Ele trovejou: “O analista não precisa gostar da música. Essa não é minha função. Pouco importa para a análise se gostamos ou não da peça”. Lembro que, naquela ocasião, fiquei desconcertado com a resposta que me fora dada. E percebi que na aula daquele “educador de mármore” era quase proibido gostar do objeto analisado.
Precisamos, muitas vezes, “fechar os olhos para ver”, escreveu o fabuloso Mário Quintana em um de seus poemas. As leituras constantes e a explosão de informações que recebemos dia a dia nos tornam pessoas cegas e surdas. Retiram a dimensão poética e dionisíaca do conhecimento. Ficamos desapaixonados pelo mundo. Já não conseguimos mais ouvir música, porque simplesmente estamos entupidos de informações que vazam pelos nossos olhos e ouvidos. Acredito que, em diversas ocasiões, “pensar é não compreender” (como já foi dito por Alberto Caeiro).
De quando em vez, nos momentos de descontração em casa com os amigos ou em um bar próximo, coloco Chico Buarque para ouvir. Vez por outra, chega alguém até a mim para discutir a “sociologia da mulher”, “a ditadura militar e a canção de protesto”, “as construções sintagmáticas dos versos buarqueanos”, “a cadência harmônica dos acordes dissonantes”, etc. Nestas ocasiões, esbravejo com a resposta na ponta da língua (mas sem perder totalmente a elegância): - Deixem Chico Buarque em paz! 


terça-feira, 17 de maio de 2011

canção comentada I


Retrato em branco em preto



É a primeira canção da parceria Chico Buarque/ Tom Jobim, que se deu no ano de 1968. Antes de ganhar um texto, esta obra musical era uma peça instrumental de Jobim, intitulada Zíngaro. Gravada e tocada por diversos intérpretes da MPB (como Elis Regina, Ney Matogrosso, Ana Carolina, João Gilberto, Nara Leão, MPB-4 e Quarteto em Cy) é considerada uma canção de difícil execução vocal, devido aos cromatismos e aos saltos intervalares na região aguda presentes na melodia – bem ao gosto jobiniano.
Retrato em branco e preto impressiona pela sincronia entre letra e música. A letra, que trata de um amor que já se reconhece fracassado antes mesmo de se realizar, alinha-se perfeitamente com a melodia cheia de ostinatos (as repetições melódicas) e repleta de dissonâncias que geram tensão. Essa espécie de “vai-e-vem” da melodia (que nos remete aos passos nervosos de uma pessoa) nos dá a estranha sensação de que estamos rodando insistentemente sem chegar a nenhum lugar. E esta é a visão do eu-lírico acerca das relações amorosas.
Uma gravação muito feliz é a de Elis Regina, no disco “Elis e Tom”, gravado em 1974 pela Polygram. A cantora gaúcha deixa de lado a sua veia explosiva e afetada para potencializar a idéia de desilusão e drama inerentes ao texto poético. E diga-se, a intérprete o faz com mestria. As notas estão afinadas, as palavras muito bem articuladas e o timbre em perfeita harmonia com o todo do arranjo. Já não se pode dizer o mesmo de Ana Carolina. Em prol do seu repetitivo swing e de sua batida funkeada de sempre, a cantora confunde a canção – que possui uma clara inclinação erudita – com uma composição qualquer. A cantora mineira, em algumas passagens, atropela e muda algumas notas da melodia para adequá-las ao seu registro vocal. Além disso, sua interpretação não leva em conta a dimensão melancólica e dramática que se observa claramente na letra. É evidente que todo intérprete possui uma margem de liberdade. Porém, a artista, de maneira infeliz, extrapolou o universo de possibilidades oferecido pela canção.
Tom Jobim e Chico Buarque, além de Retrato em branco e preto, compuseram outras canções de mesma envergadura, como “Sabiá”, “Anos dourados”, “Eu te amo”, “Imagina” e “Piano na mangueira”. Composições estas que experimentaram as várias possibilidades de organização do discurso poético-musical. Sem dúvidas, o dueto carioca forma uma das mais férteis parcerias da história de nossa MPB, embora tenham composto poucas obras.

Por Alfredo Werney