terça-feira, 30 de agosto de 2011

NICOLAS BEHR









A BANALIDADE ORNAMENTADA

Alfredo Werney



Prefiro a poesia que é poesia



Prefiro a poesia que faz entrega
de pizza em domicílio

prefiro a poesia que pega fila em banco
e reclama da vida fodida

prefiro a poesia que a gente entende
sem fazer força

prefiro a poesia não-poesia

prefiro a poesia viva, ferida,
do deixa sangrar, que manda à merda
os literatos de versos insossos, inodoros,
insípidos, incolores, inócuos e inconseqüentes

sou mais eu e minha Kombi



Recentemente, tive a oportunidade de ler o poema acima numa bonita revista do Piauí.  A autoria dessa pérola da literatura é do senhor Nicolas Behr, poeta marginal que mora em Brasília. Confesso que não imaginava que a poesia brasileira poderia chegar a um nível tão deplorável. Não é porque a linguagem seja coloquial, nem porque o autor ataca a poesia dita acadêmica, muito menos pelo fato de o texto não fazer parte dos cânones literários tradicionais. Há muita gente por aí que fazem bons poemas com as mesmas ferramentas citadas.
O que me impressiona é o mau gosto, a falta de consciência rítmica e musical, a pobreza das imagens, a falta de poesia mesmo. Mesmo quando um grande escritor quer fazer poemas aparentemente “apoéticos”, como Manuel Bandeira, ele se utiliza de um conjunto de técnicas e de recursos que, no fundo, geram uma construção inventiva e poética da linguagem. É apenas um disfarce de um mestre que já experimentou diversas maneiras de escrever um texto literário. Os recursos literários, ainda que aparentemente prosaicos, nos causam um “estranhamento”, para usar um termo dos formalistas russos. Se lermos o verso: Prefiro a poesia que faz entrega/ de pizza em domicílio, não há nada nele que extrapole a idéia (repisada e requentada) de que a poesia deve se ocupar com as coisas do cotidiano. Notemos que o enjambement não tem outra função se não a de cortar em duas partes uma frase mal feita e sem imaginação poética.
Nicolas consegue ser apoético não porque deseje o ser, mas porque ele não sabe mesmo extrair poesia das coisas. Não sabe transformar o cotidiano em literatura. Não sabe manipular as camadas fônicas do texto. O poeta de Cuiabá, para usar uma bela expressão de Merquior, tem um “ouvido metálico”. Se não, vejamos (ou melhor, ouçamos): gente/ entende; vida/ fodida. Uma série de sons que não se coadunam, parecem se bater um no outro. É certo que há bons poetas, como Allen Ginsberg, que buscam uma musicalidade mais jazzística, mais cheia de ruídos, sem os conhecidos floreios melódicos do Simbolismo. Mas este não é o caso de Nicolas Behr: a explicação que me parece mais plausível é a de que ele tem realmente o ouvido mais duro do que granito. Acho que ele poderia ter lido mais os literatos de versos “insossos” e “inodoros”, ainda que fosse para servir como um não-paradigma.
Não me restam dúvidas de que há um certo ressentimento do escritor nas entrelinhas desse texto. O autor parece se sentir desprezado pela crítica e incomodado por não estar no cânone literário. Daí é que ele dispara uma série de adjetivos (que estão totalmente fora do ritmo poético) contra a poesia canonizada: os literatos de versos insossos, inodoros, insípidos, incolores, inócuos e inconseqüentes. Sem dúvidas estes foram os adjetivos mais pobres e inadequados que já vi em um “poema”. Não dizem nada e não produzem nenhum efeito sonoro-visual. Basta trocá-los por quaisquer adjetivos que não farão falta nenhuma ao texto.
O texto de Behr é simplesmente ruim, independente do tipo de leitura que se queira realizar. Alguns contra-argumentariam dizendo que se trata de uma subversão da linguagem, o que é próprio de uma poesia marginal. A verdade é que, para subverter a linguagem, é necessário que o poeta domine primeiramente os elementos que a constituem. Nesse sentido, podemos comparar a literatura com a música: para se construir música atonal, não basta simplesmente “destruir” a tonalidade. Existem regras e recursos (como nos mostrou Schoenberg) para que se consiga o atonalismo, que, aparentemente, parece uma mera desorganização da linguagem musical.
Dentre os aspectos formais do texto que mais nos chama a atenção podemos citar a “beleza visual/melódica” da última estrofe: sou mais eu e minha Kombi. Este é o desfecho de todo o conjunto de versos sofridos do “poema”. Um fechamento vazio, pobre de recursos poéticos e, além disso, demasiadamente bobo. Uma linguagem que quer ser cotidiana e impactante, que quer ser subversiva e experimental, mas que não consegue ultrapassar a linha da banalidade. Nicolas confunde poesia do cotidiano com banalidade escrita em versos e ligeiramente ornamentada – o que são coisas bem distintas. Prefiro a poesia que é poesia, por isso continuo lendo os literatos “inócuos” e “inodoros” como Camões, Drummond, Pessoa, Bilac, Cecília e Bandeira.