quinta-feira, 13 de outubro de 2016




UM NOBEL PARA BOB DYLAN, UM PRÊMIO PARA A CANÇÃO

Alfredo Werney


Os puristas e os “idiotas da objetividade”, como dizia Nélson Rodrigues, dirão que dar um “Nobel de Literatura” para um músico popular como Bob Dylan é um absurdo, um sintoma do mundo pós-moderno, superficial e avesso à inteligência. Já está chovendo de beletristas e intelectuais na internet colocando em xeque e até mesmo esculachando, sem argumentações consistentes, a premiação concedida ao songwriter estadunidense. Muitos leitores estão desenterrando, sem saber, um ódio ancestral que há – pelo menos por parte de alguns literatos, como o brasileiro Bruno Tolentino – entre escritores acadêmicos e compositores populares. Não deixa de ser mais um capítulo, com pequenas nuanças, da chatíssima e repisada polêmica travada entre os que defendem a chamada “alta cultura” e os que estão mais abertos aos produtos da “indústria cultural”.

Não acho, sinceramente, que o “Nobel de Literatura” é um atestado de qualidade indiscutível, tampouco uma forma de medir a importância da obra de um escritor, mas é inegável a força que esse prêmio exerce no processo de divulgação do trabalho de artistas contemporâneos. De qualquer modo, fiquei bastante feliz com a escolha de Bob Dylan. Parece agora que estamos reconhecendo que a letra de canção é sim uma modalidade de literatura e que ela é capaz de discutir assuntos com profundidade e de apreender as experiências mais complexas do mundo. Na verdade, essa escolha da Academia Sueca contribui para abalar mais ainda os conceitos cristalizados de literatura. Não dá mais para sustentar, em épocas de cibercultura, que o único suporte da arte literária é o livro. Pensar assim é também esquecer que a rica tradição da literatura portuguesa, por exemplo, se inicia com a oralidade dos trovadores, que foram mestres no processo de articulação entre texto e música. E o que é Dylan se não um trovador moderno, que renovou essa tradição por meio de letras lúcidas e de alta elaboração literária?

Além da gigantesca importância de Dylan para a estética da canção norte-americana e mesmo para a canção universal, é visível que sua obra está presente no imaginário coletivo de forma mais intensa do que a literatura de muitos escritores acadêmicos. No Brasil, essa riqueza da música popular fez com que ela ocupasse, muitas vezes, um espaço maior do que as obras dos escritores stricto sensu, o que fez da canção uma forma de riflessione brasiliana, como disse Zé Miguel Wisnik. Não me sinto constrangido em dizer que, na adolescência, minha mente foi povoada muito mais pelas ideias e letras de Cazuza, Renato Russo, Humberto Gessinger e Raul Seixas, do que pelos livros dos vários escritores que estudei na escola – escritores estes que eu lia, na maioria das vezes, de forma superficial e apressada. Não estou dizendo, é evidente, que a música popular é mais importante e que ela pode substituir a literatura dos livros.  Só acredito que são duas experiências de grande valor, e não excludentes, na formação cultural de uma pessoa.

Espero que, com esse prêmio – um prêmio que, queiramos ou não, tem uma enorme repercussão nos meios de comunicação de massa –, o trabalho dos cancionistas seja cada vez mais valorizado e apreciado em todo o mundo. É fundamental que, no caso do Brasil, o artesanato literário de um Paulo César Pinheiro, de um Aldir Blanc e de um Carlos Rennó, só para citar alguns de nossos principais letristas, conquiste um lugar de maior destaque e seja lido de forma mais cuidadosa. Desejo ainda que, a partir dessas modulações que vem ocorrendo no universo conceitual da literatura, os interlocutores da canção não deixem de ler os clássicos, mas também não se sintam menor ou menos inteligente porque preferem Caetano Veloso, Chico Buarque, Cole Porter e Bob Dylan a um escritor consagrado...

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