sexta-feira, 2 de julho de 2010

MÚSICA E POESIA: EXTRATOS DE UMA ENTREVISTA

Fernando Pessoa em caricatura de Gustavo Duarte

[Esta entrevista, aqui sem algumas perguntas, data de 2003 e saiu no jornal Diário do Povo em 3 partes. Não reflete plenamente nem a visão do entrevistado nem do entrevistador atualmente, mas nem por isso parece ter perdido o interesse]

Wanderson Lima: Segismundo Spina, reverberando o pensamento de Jules Combarieu, admite que a poesia é a “irmã menor da música”; Fernando Pessoa, em suas páginas de estética, assevera, com certo exagero, que “as artes são todas uma futilidade perante a literatura”. Como você se situa diante dessa questão? Pode-se estabelecer, como o fez Schopenhauer, uma hierarquia das manifestações artísticas?

Alfredo Werney : Eu acredito que não. A intuição, a capacidade criadora, a sensibilidade são elementos inerentes ao poeta, ao músico, ao bailarino, ao ator. O que diferencia um do outro é a forma com que manifestam o seu potencial artístico. Enquanto o músico manifesta sua arte através de sons, o bailarino expressa com seu próprio corpo, o poeta com a língua. No fundo eu acho que as artes são mais parecidas umas com as outras do que imaginamos. A música, as artes plásticas e o cinema estão dentro da poesia; a dança é companheira inseparável da música, assim como o teatro da literatura. Eu, particularmente, concebo uma idéia: existe arte bem construída e arte mal construída. Eu concebo a hierarquização dos artistas, não da arte.

WL: O que o músico tem a aprender com a poesia? O fato de você ser um leitor assíduo de poesia modifica sua concepção musical?

AW: A poesia é uma das manifestações humanas mais fascinantes e complexas.Em todas as outras artes existe o elemento “poético”.A estrutura da arte poética engloba vários elementos: imagens,sons,ritmos,idéias. O senso rítmico e a musicalidade sutil de poetas como Fernando Pessoa e Cecília Meireles são uma verdadeira lição para o músico. Mudanças musicais marcantes partiram da poesia. Basta citar a revolução do poeta francês Mallarmé, que desestruturou a linguagem discursiva e abriu um novo campo de possibilidades para a poesia. Mallarmé realizou uma revolução estética a ponto de influenciar a música e a pintura. Daí é que parte a experiência marcante de Schoenberg e Webern, inaugurando uma nova forma de se construir a música, pondo em questão toda uma tradição estruturada no tonalismo. Villa-Lobos, que foi o maior músico brasileiro, afirmou que as imagens criadas nos poemas de Catulo da Paixão Cearense lhe inspiraram em suas composições mais do outros grandes músicos brasileiros. O fato de ler poesia me faz repensar o que ouço. Tive um grande impacto ao ler H.Dobal, percebi que ele é um dos poucos artistas que construiu uma artepiauiense”. É claro que existiram e existem outros grandes artistas que não tiveram esta intenção. A genialidade de H.Dobal em construir uma linguagem e uma “mensagemque retrata bem o Piauí é uma lição para qualquer outro artista do Estado. Dobal engajou-se em sua própria linguagem, sem precisar apelar como outros poetas locais que, de maneira bairrista, falam do Cabeça-de-Cuia, do rio Parnaíba, do rio Poty e acreditam está retratando o Piauí. Creio que o caminho menos longo para realizar um trabalho musical que se identifique com o Piauí, não é ouvir música piauiense (até porque nenhum músico ainda conseguiu fazê-la) mas sim ler H. Dobal.

WL: A pergunta,agora, é o inverso da anterior: o que o poeta pode aprender com o músico?

AW: Creio que o poeta também é um músico. No sentido de ser um artista que precisa ter senso rítmico, melódico e procurar harmonizar idéias e sons dentro do texto. Concordo com Ezra Pound quando ele afirma que a poesia empobrece à medida que se afasta da música. Porém, considero uma falha os poetas quererem fazer música com as palavras, nunca vão conseguir. Prefiro um Fernando Pessoa, que deixa fluir sua musicalidade, a um Camilo Peçanha, que força a poesia “parir” música. Esta situação é comum a alguns poetas simbolistas. Posso afirmar que os poetas que têm uma boa escuta musical e acompanham a trajetória dessa arte ao longo dos anos, são capazes de utilizar elementos musicais importantes como melodia e ritmo em sua poesia. Algo importante sobre poesia e música é o fato de muitos pesquisadores sustentarem a tese de que as duas artes surgiram unidas. Quer dizer, a humanidade começou a falar cantando e poetizando. Não é fantástico!?

WL: Quais os perigos, se é que os há, de se musicar um poema de um grande poeta, como Drummond ou Pessoa?

AW: É uma tarefa árdua e perigosa musicar um poema de um grande poeta. O primeiro passo é respeitar o escritor; não é uma atitude responsável musicar o poema de autor sem conhecer e discutir sua obra. É importante perceber o que o artista revela como preocupação principal em sua arte. O que acontece com a ópera é similar, o músico tem transmitir toda a tensão e o espírito do enredo, de maneira que se possa sentir, através da expressão musical, todas as nuanças da obra. Na época em que viveu Bach, o maior dos músicos, a poesia não acompanhou sua música.No clima pós Guerra dos Trinta Anos, produziu-se uma poesia de baixa qualidade na Alemanha. Assim, têm-se magníficas cantatas de Bach escritas por poetas medíocres como Picander e Neumeister. ouvi algumas experiências interessantes desse trabalho no Brasil. Chico Buarque foi muito feliz ao musicar o belo poema dramáticoMorte e Vida Severina”. Adriana Calcanhoto não se saiu bem ao musicar alguns poemas do grande poeta português Mário Sá Carneiro. A música de Calcanhoto não acompanhou o espírito inquietante e as perturbações filosóficas do texto de Sá Carneiro. Atualmente, o compositor Belchior está realizando um trabalho de musicalização de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Confesso que não estou com boas expectativas


domingo, 27 de junho de 2010

Um poema de Mario Benedetti (Uruguai, 1920 – 2009)


EL PUENTE


Para cruzalo o para no cruzarlo

ahí está el puente


en la otra orilla alguien me espera

con un durazno y un país


traigo conmigo ofrendas desusadas

entre ellas un paraguas de ombligo de madera

un libro con los pánicos en blanco

y una guitarra que no sé abrazar


vengo con las mejillas del insomnio

los pañuelos del mar y de las paces

Ias tímidas pancartas del dolor

las liturgias del beso y de la sombra


nunca he traído tantas cosas

nunca he venido con tan poco


ahí esta el puente

para cruzarlo o para no cruzarlo

yolIo voy a cruzar

sin prevenciones


en la otra orilla alguien me espera

con un durazno y un país

*

A PONTE

Tradução de Wanderson Lima.


Para cruzá-la ou não cruzá-la

aí está a ponte


na outra margem alguém me espera

com um pêssego e um país


trago comigo dádivas sem uso

entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira

um livro com os pânicos em branco

e um violão que não sei abraçar


venho com as faces da insônia

os lenços do mar e das pazes

os tímidos cartazes da dor


nunca trouxe tantas coisas

nunca vim com tão pouco


aí está a ponte

para cruzá-la ou para não cruzá-la

eu vou cruzar

sem prevenções


na outra margem alguém me espera

com um pêssego e um país


(BENEDETTI, Mário. Inventario Dos (Poesía completa 1986 – 1991). Buenos Aires: Editorial Sudamérica, 1993, p. 284).