terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ronaldo Fenômeno



RONALDO DE NAZARÉ

(Por Alfredo Werney)


O clima assemelhava-se ao de um funeral. E mais ainda: a sensação era a de que estava perdendo, para sempre, um ente muito querido. Não se tratava, pois, de uma mera despedida. Assim me senti ao assistir, pela TV, a renúncia de Ronaldo do futebol. Pelo menos seu adeus como jogador. As dores musculares e o peso do próprio corpo fizeram parar um dos maiores personagens futebolísticos que já pude ver em minha vida. Bem de longe, é verdade. A única vez que o vi foi no ano de 1996 no estádio “Albertão”, em Teresina-PI, quando eu tinha apenas 14 anos de idade. Estava na “geral”, que, por sinal, era um dos setores mais lotados do campo. O jogo tratava-se de um simples amistoso entre Brasil e Lituânia (uma insipiente seleção da República Báltica). Mas o jogo não era tão simples assim, pois havia naquela ocasião o maior camisa 9 da história do nosso esporte. Aliás, nesse mesmo amistoso, o atleta marcou três gols. Num deles o jogador aproveitou a falha do zagueiro, tomou a bola e driblou, ao mesmo tempo, o goleiro e outro marcador. Golaço!

O notável cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini dissera certa vez que o futebol latino-americano – em especial o brasileiro – era jogado com poesia, enquanto que o futebol europeu era jogado de maneira prosaica. Muitas das vezes uma prosa enfadonha que visava tão-somente fazer sucessivas triangulações até chegar – de maneira racional e programada – ao lance do chute para o gol. O que mais me preocupa é exatamente a perda constante dessa beleza poética (de que nos fala Pasolini) do nosso futebol em virtude da famigerada “otimização do rendimento”. Otimização esta pregada pela maioria dos clubes do futebol brasileiro e por técnicos truculentos a la maniera de Dunga. Uma herança ruim de origem parreriana. Contra essa doença crônica nada melhor do que fortes doses de Neymar, Ganso, Gaúcho, Dentinho e alguns outros – que não são muitos, diga-se.

Ronaldo representa essa força motriz que gera algo para além do resultado. E esse “algo a mais” (a concentração no próprio “ato de jogar”, como algo belo e transcendental) é o que há de mais interessante no futebol, a meu ver. Nazário retoma o pathos garrinchiano. Tanto para o “anjo de pernas tortas” quanto para o fenômeno, o jogo de futebol é uma espécie de dança improvisada, na qual cada movimento é tão ou mais importante do que o instante explosivo do gol. Por outro lado, o craque também atende a demanda dessa tal “otimização do rendimento”, uma vez que é muito eficiente no ato de colocar a bola na rede. Maior artilheiro de Copas do Mundo, várias vezes do Campeonato Espanhol, goleador do Campeonato Mineiro e da Copa América – fatos que comprovam sua indiscutível eficiência.

O futebol de Nazário de Lima reúne, ao mesmo tempo, beleza e eficiência, gratuidade poética e pragmatismo, força física e flexibilidade. É Apolo e Dionísio numa só arcada. Não há nenhum fundamento básico do futebol que o jogador não domine com mestria. Essas características fazem dele um atleta como poucos. “Completo [...] tudo pra ele é mais fácil”, nas palavras de seu talentoso discípulo Ronaldinho Gaúcho. Um jogo com Ronaldo em campo pode estar sendo a mais enfadonha das prosas, mas, permanecemos sempre atentos. Sabemos que, a qualquer minuto, pode surgir ali um momento de irrupção poética em meio a todo aquele prosaísmo insípido.

Ronaldo, ao retornar para o Brasil, virou de fato uma “bola em campo”. Gordo e flácido. Mas, ao entrar nas quatro linhas, enxergava o que estava para além de seu raio de visão. O retorno de Ronaldo provou que futebol não é tão-somente uma atividade corporal, mas, em grande parte, uma atividade mental. O jogador foi capaz de prever várias jogadas antes mesmo de tocar a bola (enquanto os jogadores menos talentosos ainda estavam presos ao tiro de meta), de movimentar-se para onde a bola não estava, de fazer lançamentos para espaços aparentemente vazios. Sua péssima forma física foi compensada por uma mente que agia tão rápida e precisamente como a de um Garry Kasparov ao jogar xadrez.

O futebol, que não deixa de ser uma espécie de espetáculo artístico, perdeu um de seus maiores artistas. Sim, artista. Não temo comparar a capacidade de Ronaldo com a de um escritor da altura de Manuel Bandeira ou com a de um pintor da envergadura de Portinari. O que diferencia um gênio do outro é apenas o meio de expressão. O problema é que no Brasil somos apaixonados por futebol, mas não acreditamos que há inteligência nesse universo. Tratamo-lo tão-somente como um mecanismo de fuga do nosso cotidiano árduo. Prefiro as palavras de Nélson Rodrigues (profundo conhecedor do esporte) que diz que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana”, a essa querela chata propalada pelos espíritos mais pragmáticos (“Futebol é pura alienação, não ganhamos nada com isso!”).

Ronaldo Nazário de Lima não se limitou a jogar futebol. Ele alargou a dimensão plástica e poética desse esporte. Mostrou que a eficiência pode vir coadunada com a gratuidade. Provou que a obstinada busca pelo resultado não deve suplantar a beleza plástica do jogo. Ronaldo, enfim, foi um poeta que escreveu com as pernas (ainda que fragilizadas pelas sucessivas cirurgias) e transformou o futebol em um verdadeiro momento de pura epifania.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

palestra sobre "Cipriano"


A construção do sentido de Cipriano, de Douglas Machado

(resumo da palestra apresentada para o CEPP, dia 06/ 12/2008)

Alfredo Werney

1- Introdução

Bom dia a todos. Eu queria, antes de tudo, agradecer o convite do CEPP (Ciclo de estudos de Psicanálise do Piauí) e dizer que fico feliz em ver que a Psicologia e a Psicanálise estão abrindo espaço para outros campos, no caso a Arte, mais especificamente “o cinema”. Acho importante que a Psicologia e a Psicanálise não fiquem somente na clínica, mas se expandam e busquem a compreensão do humano também pelo viés da arte. Eu, que por muito tempo fui estudante de Psicologia e agora estou me formando em Artes, conheço um pouco dos dois lados da moeda. O curso de Psicologia é muito fechado. É um curso que não costuma aceitar leituras de orientação artística. A Psicanálise me parece mais aberta à questão. O próprio Freud ressaltou a importância do conhecimento artístico na formação do psicanalista.

2- Produção

Comecemos a discussão sobre “Cipriano” falando um pouco da sua produção. “Cipriano” foi produzido pela “Trinca Filmes”, e dirigido por Douglas Machado. As primeiras cenas foram gravadas no norte piauiense: Piri-Piri, Parnaíba, litoral piauiense. O orçamento do filme foi muito baixo. Douglas teve poucos apoios, o mais importante talvez tenha sido da lei A. Tito Filho, vinculada à Prefeitura de Teresina. A equipe de produção do filme foi formada por brasileiros e suecos. A pós-produção (montagem e trilha sonora) foi realizada na Suécia. Trata-se do primeiro longa-metragem produzido no Piauí, com direção piauiense. Antes, tivemos filmes como “O Guru Das Sete Cidades”, mas não se trata ainda de uma produção piauiense, com recursos e direção de pessoas ligadas a nosso estado.

“Cipriano”, foi possível percebermos, não se trata de um filme agradável e indicado para assistirmos com a família em casa, comendo pipoca. Esse fator incomodou muita gente que esperava, com euforia, pelo primeiro filme piauiense. Muitos queriam se ver na tela, se identificar com as personagens. Mas não foi o que viram na tela do Riverside: não se tratava de mais um daqueles filmes que fala da seca e dos problemas sociais do Nordeste. Na maioria das vezes, de forma pitoresca e ingênua.

O cineasta brasileiro quando se depara com o problema da escassez de recursos, já dizia o nosso grande Glauber Rocha, geralmente ele busca dois caminhos:

i- Fazer um cinema à Hollywood.

ii- Produzir um cinema puramente reivindicatório, sem nenhuma preocupação estética.

Cipriano não se trata nem de panfleto (crítica os problemas sociais do sertanejo) nem de cinema comercial que apela para o pitoresco e para a gramática fílmica hollywoodiana. Dessa maneira, o filme foge dessas armadilhas que acabei de falar. O filme, na verdade, é uma alegoria acerca do universo simbólico do nordestino. A minha análise não se dará pelo caminho da psicanálise, já que a professora Lídia fará essa leitura depois. Além disso, seria arriscado falar de Psicanálise para vocês que são psicanalistas. O que vou observar é como se constrói o sentido do filme a partir de sua estruturação: montagem, trilha sonora, iluminação, personagens, etc.


3- Estruturação do filme

“Cipriano” é estruturado em cinco sonhos: Demônios, Morte, Procissão, Cemitério, Morada das almas. A narrativa é aparentemente simples: Um homem que morrer e ser enterrado em um cemitério próximo ao mar. Seus filhos, Abigail e Vicente, são responsáveis por esta tarefa.


4- O universo barroco em Cipriano

Um aspecto do filme que me marca muito é a sua atmosfera barroca. O trabalho de Douglas possui uma linguagem muito próxima de um universo barroco, se nós compreendermos o barroco como uma constante estilística que está para além do século XVII. Os contrastes de ritmos (tomadas longas/ rápidas), de sons (silêncio/ saturação sonora), de iluminação (claro e escuro) o aspecto polifônico (multiplicidades de vozes: rezadeiras, narração de Vicente, Bigail, sons da trilha) confirmam essa composição do filme.


5- A questão do tempo e do espaço.

Outra questão que me chama a atenção é a construção do tempo e do espaço da obra. O tempo em “Cipriano” não é organizado de maneira cronológica. O tempo de “Cipriano” é mítico, circular: é o tempo do ritual religioso e não o tempo do relógio e da modernidade. É tanto que o filme não faz referência a datas, vocês devem ter percebido. E o espaço do filme? O espaço de “Cipriano” é contrastante: mar/ sertão, casa comprimida/ espaço aberto; além disso, é simbólico: relaciona-se com o universo das personagens. O velho Cipriano vive trancado em sua casa pequena, Vicente prefere espaços amplos e claros, como a praia, os rios. O sertão de Cipriano se aproxima com o de Guimarães Rosa (atemporal, poético, mítico, transcendental) e se distancia do sertão de Graciliano Ramos (temporal, realista, seco, calcado nas problemáticas sociais). É um sertão poético, sem prosaísmos.

6- A geometria de Cipriano

Uma questão interessante que percebi quando assisti “Cipriano” pela segunda vez é que o filme é organizado por círculos e espirais: os movimentos de câmera, a dança da morte, as construções musicais, a narrativa, etc. Essa estruturação está concatenada com a idéia de um tempo mítico do qual falei anteriormente.


7- Montagem

A montagem de “Cipriano” está relacionada com a idéia de movimento circular do filme. A montagem possui contrastes de ritmo (ora planos lentos/ ora planos rápidos). O tipo de montagem recorrente no filme é a montagem polifônica: aquela que possui várias imagens que se sucedem em diferentes ritmos. Trata-se de imagens que circulam e apresentam um leitmotiv. O leitmotiv é uma espécie de refrão musical. Eisenstein denominou esse princípio de montagem de harmônico-visual. No terceiro sonho, podemos perceber nitidamente esse tipo de montagem que eu comentei.


8- Personagens

Vou falar agora sobre os personagens, que são muito interessantes. Os personagens de “Cipriano” certamente serão mais bem compreendidos pelo viés da psicanálise do que pelo viés da sociologia, pois o universo de Cipriano não é explicado pela questão política e social, mas pelos distúrbios de realidade das personagens e pelas forças da natureza e dos sonhos.

Vicente tem a visão defeituosa e vê as coisas de maneira desfigurada. Sua mãe morreu, supostamente, do seu parto. Vicente, assim, guarda um rancor edipiano pela figura paterna. Ele busca o impulso da vida e em algumas cenas recompõe o ritual do batismo.

Cipriano é uma nítida referência ao santo canonizado no século XIX pela Igreja Católica. Ele representa a dilaceração do homem que vive entre as forças do bem e do mal. Há todo um misticismo em volta da vida de São Cipriano, que estudou o orientalismo e supostamente escreveu sobre magia negra.

Abigail simboliza o ponto de equilíbrio entre o pai e o irmão. Pesquisando o Antigo testamento, li que Abigail era uma mulher disputada por Nabal e Davi. Quando Nabal morreu, seu marido, Abigail se casou com o rei Davi. Ela foi responsável por evitar uma tragédia entre os dois personagens. Não sei se os nomes foram criados intencionalmente por Douglas Machado. Aliás, isso não me interessa tanto. Afinal, a obra de Arte é aberta: o autor não é o dono do sentido.


9- Trilha sonora.

A trilha sonora é a parte do cinema que engloba: música, sons do ambiente, diálogos. A música de “Cipriano” foi produzida a partir de sons sintetizados. O som sintetizado é som produzido por meios eletrônicos. A música de “Cipriano”, em geral procura dialogar com os movimentos de câmera, com a montagem e com outros componentes da linguagem fílmica. Em geral, a música é construída com uso ostensivo de ostinatos. Os ostinatos, na linguagem da música, são repetições frasais que geram tensão por serem muito repetitivas. Basta que nos lembremos dos sons das rezadeiras: sempre estão se repetindo durante cada sonho.

A música desse filme, não se trata de uma música pitoresca que procura mostrar a sonoridade típica do sertão – aquela coisa de zabumbas, sanfona, violas e pífanos de Caruaru. Esse tipo de música é muito comum, atualmente, no cinema produzido no Nordeste. Exemplo: “Lisbela e o prisioneiro”, “Auto da Compadecida”, e por aí vai. É um tipo de trilha sonora centrada em clichês que não geram reflexão, apenas confortam nossos ouvidos. E ainda mais: se direcionam para o mercado de canções populares. Ou seja: se o público assimilar as canções, a venda de discos é farta.


10- Câmera e Iluminação

Dois componentes importantes na construção de sentido de “Cipriano’ é a câmera e a iluminação. A câmera em “Cipriano” oscila entre momentos de extrema poesia e momentos de pura documentação. As rezadeiras, por exemplo, são filmadas com um caráter documental. Os movimentos de câmeras participam da idéia de um tempo circular que sempre estamos comentando; vários são os movimentos em círculo que a câmera assume quando fotografa o velho Cipriano. A iluminação do filme oscila entre intenso claro e intenso escuro: Luz e Treva. A iluminação simboliza o universo dilacerado de Cipriano: O Bem e o Mal.


11Considerações finais

Para finalizar essa nossa discussão, quero colocar que “Cipriano” é uma grande obra e demonstra que o Piauí já iniciou adulto no mundo do cinema. O filme, quando foi lançado, foi muito criticado por jornalistas desinformados e pelo público acostumado somente com os lugares-comuns do cinema comercial do Nordeste. A questão é que Douglas não quis fazer um filme para homenagear o Piauí. E foi aí que, a meu ver, ele acertou. O cinema é uma linguagem artística e não um simples meio de transmitir mensagens político-ideológicas. Para isso, já existem inúmeros programas de televisão. Aliás, acho que até mesmo os programas de TV deveriam possuir uma linguagem mais humanizada e mais poética. Por que não assistir um jornal como um meio informativo e ao mesmo tempo como um objeto de prazer estético? As duas dimensões não se anulam.

Voltando para a análise de “Cipriano”, podemos colocar que toda essa nossa discussão sobre os elementos formais da película nos leva a afirmar que se trata de um filme em que a visão de mundo está estritamente ligada aos procedimentos estruturais. Uma visão de mundo cíclica e tensa, que se organiza da mesma maneira dos nossos sonhos. “Cipriano” possui uma estruturação parecida com a estruturação dos nossos pensamentos. Nossos pensamentos não são lineares, eles se misturam e se apresentam como raízes de uma árvore. Esse vai-e-vem da narrativa se relaciona também com o universo da loucura de Vicente e Cipriano. Em fim, “Cipriano” possui uma estrutura e uma visão de mundo que estão intimamente conectadas.