quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

LAVOURA ARCAICA





UMA LAVOURA SEM COLHEITA

( Por Alfredo Werney)

               As imagens sonoras e visuais de “Lavoura Arcaica” (2001) são exageradamente belas, impressionam nossos olhos e os ouvidos desde os primeiros minutos de projeção, quando vemos no quadro uma cena de masturbação acompanhada musicalmente pelo som nervoso de um trem. Acredito que muitas pessoas tiveram a mesma sensação que eu tive ao assistir a obra de Luiz Fernando Carvalho.  É um filme que foge totalmente dos padrões que observamos no mercado cinematográfico brasileiro. Não é o tipo de obra que vê o sertão de uma forma caricatural, como ocorre nos filmes de Guel Arraes e seus pequenos discípulos. Nem se trata das narrativas fílmicas que se passam nas favelas e nos espaços urbanos do proletariado, com toda aquela estética cansativa que já conhecemos: câmeras trêmulas passando por becos, iluminação espontânea e natural, montagens rápidas e de ritmo frenético, sons de tiros, ruídos e funk carioca, etc. Esse é um dos méritos de “Lavoura Arcaica”: estamos diante de uma produção que se arrisca, não tem medo de experimentar. Por este motivo, a direção da película abre mão das fórmulas prontas que, há muito tempo, agradam o público brasileiro.

          Mas há algo que, sinceramente, incomoda: o filme é exageradamente estetizado, pomposo, pretensioso (poderíamos dizer). A presença do diretor – que parece não ter superado o “mito” do cinema de autor criado pelos críticos franceses – chega a ser invasiva e incômoda. A impressão que tive ao ver a obra foi a de que Luiz Fernando, ao longo de todo o filme, quer se auto-afirmar: “Vejam como sei fazer filmes de arte!”, “Vejam como sei extrair poesia da câmera!”, “Vejam como este plano é raro e difícil de ser captado!”. Nesse sentido, a beleza visual dos planos parece servir mais para mostrar o virtuosismo do diretor do que mesmo para construir o discurso fílmico. Não seria exagero dizer que se trata de uma produção feita para os acadêmicos, estudantes universitários e intelectuais que adoram fazer as conhecidas e empolgantes análises formalistas.

           Em relação à música, por exemplo, não há como negar: o trabalho de Marco Antônio Guimarães é muito bem composto e avesso ao lugar-comum. Contudo, peca, novamente, pelo esteticismo, pela criação de um exotismo demasiado ornamental: sonoridades orientais, instrumentos incomuns, timbres pouco reconhecíveis, ritmos e pulsações irregulares, sons descontextualizados (como na cena da masturbação de André, em que ouvimos a sonoridade de um trem frenético), citações de obras de Bach, contrastes provocados pelo uso do silêncio, etc – são os elementos que compõem a paisagem sonora da trilha. Todo o cardápio de Guimarães é feito para causar impacto nos ouvidos do público, mas carece de uma relação mais profunda ( e também mais humilde) com a imagem. 

          É claro que todo esse universo sonoro-visual de que falamos não se distancia da escrita de Raduan Nassar. Com efeito, o livro possui muitos elementos que estão presentes no filme. Devemos dizer que Luiz Fernando Carvalho, em certa medida, soube os captar. Entretanto, o diretor parece querer dar um salto além da perna. O cineasta carioca quer “barroquizar” mais ainda uma obra que já é, por sua natureza, contrastante, embaraçada do ponto de vista da linguagem. Sei que toda “adaptação” é uma recriação, mas em tudo deve haver certo limite.        

          “Estorvo”, (2000, dirigido por Rui Guerra), por exemplo, foi realizado praticamente na mesma época e possui uma problemática estética um tanto quanto semelhante à de “Lavoura”. No entanto, trata-se de uma obra muito mais sincera e mais rica cinematograficamente. Os seus experimentalismos não são estéreis e nem decorativos. Com efeito, são fundamentais para a construção de sentido do discurso fílmico.  Felipe Bragança, em seu texto “A boa arte de Lavoura Arcaica”, resume, de forma inteligente, a postura de Fernando Carvalho: “O falso impacto é pior do que a calmaria. Assim como a retomada apática do sertão por filmes como Central e Eu, Tu, Eles enfraquece a potencialidade daquele espaço, a inventividade no cinema brasileiro não pode correr o risco de se limitar a frágil ruptura autista que Carvalho parece propor”. Esta ruptura de que nos fala Bragança desemboca, às vezes, na pura metalinguagem, no cinema que se esgota na ânsia de expressar o seu próprio código.

          Mesmo com todas as ressalvas, seria muito injusto dizer que “Lavoura Arcaica” é uma “adaptação” mal feita, que é um filme ruim. De forma nenhuma. Talvez o defeito – desculpem-me o paradoxo de mau gosto –, esteja no fato de a película ser “bem feita demais”. Não há nela um mínimo espaço para o espectador pensar, degustar as imagens e tentar completar o sentido de uma cena em sua mente. Isso não nos é permitido, pois todos os planos do filme estão povoados de sentidos previamente prontos. Se bem observarmos, tudo está rigorosamente atrelado a um significado, a um símbolo. Esse excesso de formas, cores, sons e símbolos – tal qual uma obra de arte do Rococó – esvazia-se em si mesmo.

         Todos os elementos do discurso fílmico parecem estar amarrados à idéia de se construir um cinema poético, daí a repugnância a uma narrativa linear e fria. Walter Carvalho quer provar isso a todo tempo com seus diversos filtros de cor, com seus contrastes, à maneira de uma pintura de Caravaggio. O cenário do filme segue os mesmos passos cambiantes: é de um rigor científico que nos causa certo desconforto. Cada cômodo da casa, cada ambiente do sítio, cada árvore, cada pedra e cada tijolo querem refletir a psique, os estados de espírito das personagens.  A casa abandonada (com suas janelas deterioradas e as suas paredes tortuosas), por exemplo, é a própria personalidade conflituosa de André. E o que dizer das personagens? A atuação dos atores é de um dramatismo visual que nos lembra os filmes da era muda do Expressionismo alemão. Já as explosões e a projeção vocais nos lembram os intérpretes de ópera wagneriana. Daniela Sandler nos disse, com razão, em seu texto “Virtudes e pecados”: "Tudo, atores inclusive, parece menos dirigido que coreografado em torno da idéia central e literária, a fonte do filme, o argumento, tirado do livro de Raduan Nassar. Não há espaço para o acaso – o diretor controla tudo, rigoroso. Não à toa, a obra foi feita em isolamento, numa fazenda onde a preparação dos atores durou meses".

           A linguagem fílmica, dessa maneira, se transforma em um mero adorno visual e perde a capacidade de “filosofar por imagens”, como nos falara Deleuze.  E assim pegamos novamente a obra de Nassar para lermos e nos deleitarmos esteticamente.  Deixamos de lado o filme, pois no livro encontramos espaço para criar imagens, pensar, sentir o sabor sonoro-visual e a dimensão espiritual de cada palavra, sem alguém em nosso “pé do ouvido” formulando explicações e nos dizendo a maneira como devemos perceber as coisas. Esta é a lavoura cultivada por Luiz Fernando: muito bonita, mas parece que não colhemos nada dela.
         

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SÓCRATES


APOLOGIA A SÓCRATES: O BRASILEIRO

(Alfredo Werney)

          Elegância, equilíbrio e uma visão de campo camaleônica. Se estas palavras não definem, mas dizem muito sobre o futebol de Sócrates Brasileiro. Ele foi, indubitavelmente, um dos jogadores mais importantes do futebol mundial. Poucos, a exemplo de Zidane, Riquelme e Ganso – embora, talvez, com menos brilho do que o Doutor – jogaram com tamanha pompa e equilíbrio dentro das quatro linhas. Magro e de alta estatura, sua característica principal não era a velocidade, mas sim o total domínio dos setores do campo e dos fundamentos básicos da "gramática futebolística". Cobrava falta com mestria, defendia muito bem, dava passes milimétricos, além de uma invejável habilidade com o uso do calcanhar.

          A expressão do Doutor, porém, não se reduziu ao limite das quatro linhas do gramado. Foi um dos principais esportistas na luta contra a Ditadura. Inteligente e politizado, desenvolveu um regime democrático no Sport Club Corinthians, juntamente com outros jogadores, que ficou marcado na história do futebol brasileiro como uma  respeitada bandeira de luta contra o autoritarismo político que se firmara em nossa nação.

          Sócrates sempre jogou de uma maneira que parecia flutuar em campo, pois jogava com uma naturalidade e uma gratuidade raramente vistas. Possuía um impressionante controle sobre o ritmo do jogo: se era para acelerar ou ralentar a partida, tudo partia de seus astuciosos pés. Efetivamente, poucos meios-de-campo tiveram sua habilidade e visão de jogo. Hoje, por exemplo, é praticamente impossível se encontrar um jogador de sua posição com as mesmas características, uma vez que o futebol se tornou mais rápido e mais defensivo. Além do que, em geral, a beleza plástica e a inteligência do jogo foram esmagadas por um esquema tático rígido que privilegia a força física e o resultado.

          Sócrates partiu para outros campos, mas nos deixou um legado futebolístico de grande valor. Sua capacidade de criar em campo, seus toques curtos e precisos, seus dribles medidos e oportunos, seu calcanhar inteligente, sua capacidade, ao mesmo tempo, de “contenção” e “ataque” – ainda que raro – podem ainda ser visto em alguns futebolistas contemporâneos (embora de maneira menos genial, como se vê em um Ganso).

          Há quem fale apenas em seu problema de alcoolismo, como se isso fosse, de fato, algo raro em nosso país.  O que importa para quem ama o esporte e o país, realmente, é a contribuição de Sócrates na construção do imaginário do futebol brasileiro. De grande impacto também foi a sua militância política, pois o atleta procurou construir uma visão e um sistema de futebol mais  humano  e mais democrático, no qual todos envolvidos no processo pudessem afirmar sua voz e contribuir para a realização de mudanças. Sabemos, entretanto, que seu projeto não foi muito levado a sério por muitos jogadores e clubes da época. Sabemos também que o que predomina na atualidade, ao contrário do que propunha o doutor, é uma política de esportes suja e inescrupulosa.

        Deixando a marcação de lado, como o fazem inúmeros jornalistas espetaculosos, e procurando não entrar num campo pessoal, torcemos para que Sócrates seja lembrado tão-somente pelo o que fez dentro dos campos e pelo que fez politicamente pelo sistema do futebol como um todo. Isso, sinceramente, é bem mais interessante para aqueles compreendem a linguagem do futebol e  que vivem de forma intensa essa engenhosa e  mágica "dança dos deuses".