domingo, 8 de maio de 2016



SAMBANDO NA CARNIFICINA

Alfredo Werney

(Aos meus amigos, os professores Mário, Ítalo, Wilbert e Elkejer).


Sempre que se fala em canção vem logo a nossa mente a ideia de uma melodia que se articula com uma letra e juntas formam um todo significativo. E é bem verdade: o núcleo de sentido de uma canção, como observou o semioticista Luiz Tatit, é exatamente a melodia e a letra. Mas o próprio pesquisador fez questão de mencionar em seus livros a importância de outros elementos construtores de sentido, tais como a interpretação, a instrumentação, a harmonia e o arranjo. Esses elementos, embora não façam parte diretamente do corpo de sua teoria, são frequentemente aventados. Por sinal, muitos dos discípulos do músico paulista deram prosseguimento ao longo projeto de se estudar categorias semióticas que estão para além desse núcleo (texto e melodia).

O fato é que eu não queria começar uma simples crônica musical com uma dicção excessivamente teórica. Mas foi o jeito, confesso que não encontrei outra saída. De qualquer maneira, essa breve explanação da teoria semiótica da canção foi simplesmente para mostrar que o arranjo, ainda que não seja o foco principal do trabalho do cancionista, desempenha um papel de grande importância na construção de seu discurso músico-literário. Isso é um assunto que, na prática, todo músico já sabe, mas nossa escuta musical, na maioria das vezes, é tão displicente e fragmentada, que deixamos de lado esta expressiva arte. Digo isto porque o arranjo é um elemento tão especial para a música que alguns chegam a tratá-lo como uma arte verdadeiramente autônoma. Paradoxalmente, ele é um dos pilares do discurso musical, mas parece estar além dele. Existem, por exemplo, grandes arranjadores que não se aventuram a compor três notas sequer de uma simples cançoneta. Por outro lado, há excelentes cancionistas que nada entendem dessa técnica.  E existem músicos completos, que dominam os dois ofícios, como Pixinguinha, Moacir Santos, Tom Jobim, Wagner Tiso e Edu Lobo.

Agora vamos ao assunto propriamente dito. Sempre que eu ouvia despretensiosamente o Sambô, aquela banda de samba misturado com rock que surgiu em Ribeirão Preto-SP, não dava muita atenção ao seu trabalho artístico, até mesmo porque não me dizia muita coisa. Em geral, achava a voz do cantor desafinada e estridente, as soluções instrumentais repletas de clichês sem graça, o ritmo repetitivo e sem variações de dinâmica e os arranjos de mau gosto. No entanto, não era nada que me incomodasse profundamente.

Certa vez, retornando de uma viagem rotineira com uns amigos professores – todos eles pessoas de uma boa educação musical, mas há momentos na vida de pura descontração em que a gente ouve de tudo – eu pude escutar no carro um disco por inteiro da famigerada banda. Passei então a perceber muita coisa, juntamente com os amigos, que eu não notava. A mais gritante delas foi o total descompromisso daquele grupo musical com os arranjos. A maior parte do repertório da banda consistia unicamente em canções consagradas que se transformaram em sambas mais apressados. Uma música me chamou mais a atenção do que outras: era a grave e bela canção da banda irlandesa U2, “Sunday Bloody Sunday” – faixa presente no álbum War, lançado no ano de 1983. Uma obra feita em tom de crítica política, descrevendo a violência do “Domingo Sangrento”.

Na versão original, a canção do U2 inicia com um ostinato (trechos musicais que seguem um padrão de repetição) da bateira, que se assemelha ironicamente a uma marcha militar, principalmente pelo uso da caixa. Logo após entra a guitarra, que faz um glissando na região aguda e toca um arpejo simples, criando a sensação de algo circular. De forma sugestiva, o ritmo da bateira, casado com um contrabaixo que executa células rítmicas fortes e em staccato, nos faz lembrar os disparos dos militares. Ouvimos também, em algumas passagens, a guitarra executar notas longas e agudas que geram um contínuo efeito de tensão (gritos de crianças em desespero?). Já a voz de Bono mostra-se com um quê de lamento, de alguém que fala carregado de angústia. Entram na música também outras vozes que cruzam com a do vocalista e criam uma espécie de comunhão, dando o efeito acústico de um canto de coletividade. As insistentes repetições do coro “Sunday Bloody Sunday” fazem com que o refrão fique ressoando na memória, como se o eu lírico nos obrigasse a lembrar, a todo o instante, a violência do evento narrado. A música gradativamente vai se tornando mais intensa, até sofrer uma suavização da dinâmica, findando-se aos poucos. O efeito geral produzido é muito bonito. É possível identificarmos, por meio da organização dos sons, uma narratividade, uma descrição da paisagem sonora do “Domingo Sangrento”. Isso porque, entre outros elementos de grande expressividade (como a letra e a interpretação), estamos diante de um arranjo bem estruturado, inventivo, que agrega muitas informações ao conteúdo do texto poético.

Muitos já devem saber, mas insisto em fazer um brevíssimo resumo do acontecimento. O “Domingo Sangrento” foi um confronto entre católicos e protestantes ocorrido em Londonderry, na Irlanda do Norte, em janeiro de 1972. Milhares de manifestantes, muitos deles jovens, protestavam pelos direitos civis de católicos. Além disso, postavam-se contra a dura política do Governo Britânico, que prendia, sem ordem judicial e de maneira indiscriminada, pessoas suspeitas de conspiração contra as organizações governamentais. Na ocasião, tropas britânicas dispararam contra os manifestantes, que estavam desarmados, o que deixou catorze (algumas fontes afirmam ter sido treze) católicos mortos e dezenas feridos. Dentre as pessoas feridas havia mulheres. Foi um episódio trágico da História da Irlanda, país que ainda hoje enfrenta problemas de convivência social entre comunidades católicas e protestantes.

E o que tudo isso tem a ver com o tratamento que o Sambô deu a “Sunday Bloody Sunday”? Expliquemos. Essa música, que virou um dos grandes sucessos do U2 e, de certa maneira, um símbolo da dor coletiva de uma nação, foi convertida num samba agitado e brejeiro. Através do arranjo, modicou-se o andamento, o fraseio e o ritmo. O acompanhamento instrumental – executado por banjo, percussão, bateria e teclados – ficou totalmente afastado do caráter e da concepção musical da composição do U2. Além disso, a versão contou com o “auxílio luxuoso” da interpretação de Daniel San (um cantor de voz nasalizada e de péssima dicção) que expressou em sua performance, do primeiro compasso até a última pancada do surdo, uma alegria irradiante.

Foi a partir de então que comecei, seriamente, a me indagar: Como é possível uma banda dar uma dimensão festiva e eufórica a uma obra que trata de uma página tão triste da História da Europa? Como se pode fazer um arranjo de uma canção originalmente tão grave e melancólica, com o intuito de torná-la um canto de celebração da vida noturna e um convite ao rebolado? Para ser sincero, eu até acho que os integrantes do Sambô, assim como a maior parte de seu público, devem saber, pelos menos de forma superficial, o que se passa no conteúdo da letra de “Sunday Bloody Sunday”. O que eu tenho certeza é que esses músicos nada compreendem sobre a força de sentido que um arranjo pode produzir (refiro-me principalmente à gravação ao vivo em DVD).  Não entendem que esse componente pode transfigurar conteúdos, dar um novo caráter ao discurso do compositor, induzindo o ouvinte para leituras totalmente equivocadas do texto poético. E mais ainda: que o mau emprego dessa técnica pode resultar em efeitos de sentido catastróficos. Musicalmente, o grupo também já conseguiu borrar outros clássicos do rock, como “Satisfaction” (The Rolling Stones) e “Rock and Roll” (Led Zeppelin). O resultado talvez tenha sido um pouco menos desastroso, já que são obras que não tratam de dramas coletivos.

Outra opção bastante equivocada, a meu ver, foi a escolha do samba para representar o universo angustiante de “Sunday Bloody Sunday”. Lembremos que o samba é uma confluência de expressões, uma síntese entre ritmos de raízes africanas que aportaram na Bahia e ritmos urbanos do Rio de Janeiro (sobretudo o maxixe e o choro). Desde sua origem – recordemos daquele que é considerado o primeiro do estilo a ser registrado, “Pelo Telefone” (1917) – esse gênero tem uma estreita relação com a malandragem, com a euforia dos morros cariocas, com o espírito deliberadamente dionisíaco. É evidente que há sambas tingidos com uma tonalidade mais soturna e dramática, como alguns clássicos do samba-canção. Mas esses são exceções. No geral, ele é ainda visto como uma espécie de panaceia para todos os dissabores da vida social, como se constata na bela composição “A voz do morro”, de Zé Keti: “Eu sou o samba / Sou natural daqui do Rio de Janeiro /Sou eu quem levo a alegria/ Para milhões de corações brasileiros”.

Quando se transforma uma obra musical que versa sobre uma tragédia coletiva num pagode qualquer feito para um público em estado de êxtase se saracotear em uma casa de shows, há nisso um desrespeito que extrapola a esfera da estética musical. Honestamente, não desejaria que minhas palavras soassem com um tom muito moralista (talvez eu não consiga), mas vejo nisso consequências éticas. Não é purismo de minha parte, nada tenho contra ousadias musicais. Estou certo de que, muitas vezes, um arranjo bem pensado pode despertar o interesse do interlocutor por uma canção que, a princípio, ele nem ligava tanto. Sei também que o tratamento dado pelo Sambô à composição do U2 não se trata, é óbvio, de uma possível ironia, pastiche ou paródia – o que ultrapassaria as fronteiras da sensatez.

O caso aqui é bem diferente. Basta que vejamos, em uma tradução literal e sem preocupações poéticas, o que diz um trecho da letra da música do U2: “Garrafas quebradas sob os pés das crianças / Corpos espalhados num beco sem saída / Mas não vou atender ao clamor da batalha/ Ele me encurrala, me encurrala/ Contra a parede / Domingo, domingo sangrento”. Sinceramente, é difícil ver um texto doloroso como esse, que trata de uma tragédia que não sai da memória do povo irlandês, reduzir-se a uma festa carnavalizada. É demasiado perverso ver inúmeros rostos felizes rebolando aos sons dos guizos do pandeiro e cantando em uníssono: “Domingo, domingo sangrento!”.

Voltemos agora para o universo do arranjo musical. Dá para notarmos, se fizermos um paralelo entre a faixa original da banda irlandesa e a catastrófica versão feita pelo Sambô, a dimensão que o arranjo ocupa na construção de sentido do discurso musical. Ele não é mera roupagem. Está para a linguagem musical como a fotografia está para o cinema, pois tem um poder de criar climas psicológicos, de despertar sensações, de produzir efeitos sobre nossa sensibilidade. Ao se alterar o andamento, a articulação das notas e o ritmo de uma música, inserir notas e timbres sem uma intenção estética clara, o arranjador pode trazer graves consequências para o sentido da canção.  Isso se levarmos a música popular a sério e não como um simples entretenimento de fim de noite, como o fez a banda do estado de São Paulo. Quem aprecia e estuda a rica tradição da música popular do Brasil sabe que ela é muito mais do que uma forma de catarse coletiva. Ela é um espaço de fusões, de debates de ideias, de exposição de nossas contradições. A MPB, desde o surgimento do lundu e o maxixe, tem se mostrado um terreno fértil, por meio do qual podemos compreender de forma mais orgânica a cultura brasileira.

E ainda há muitos ouvidos desavisados que acreditam que o Sambô é uma banda cult, porque os músicos propõem-se a fazer “releituras” de clássicos da música brasileira e estrangeira, mesclando o pop e o rock com o samba. Na realidade, os que escutam de uma forma descuidada, podem ter a impressão de que esse grupo musical, através de fusões, criou uma linguagem sonora própria e alternativa. Puro engano! Não quero dizer que a banda não tenha bons músicos (ela tem), mas essa ideia de hibridismo e fusão na música brasileira há muito tempo não é mais novidade. De forma sistemática e intencional, esses procedimentos surgem na MPB desde o balanço de Jorge Ben e do radicalismo da Tropicália (na década de 1970). Na década de 1990 esse espírito é igualmente retomado, com algumas reconsiderações estilísticas, pelo movimento “Manguebeat”.

Trilhando por outros caminhos, o que o Sambô faz é apenas misturar instrumentos que pertencem a gêneros musicais diferentes (por exemplo: colocar uma guitarra distorcida num samba tradicional, ou um banjo e um cavaquinho no meio de um rock padrão). No rigor do termo, não há hibridismo. O que há é um amontoado de timbres que se mesclam, muitas vezes desordenadamente. Seria uma espécie de “hibridismo” empobrecido e facilitado, feito para causar um falso impacto, pelo fato de se mostrar exótico. Um sintoma muito comum do esvaziamento linguístico e cultural que se incrustou na atual música brasileira.


É inadmissível que um grupo musical, que possui um público e uma visibilidade na mídia considerável, cometa um deslize tão assombroso. Não faltou a esse grupo somente competência musical, mas bom senso estético, inteligência e consciência da força comunicativa que a canção possui. E, além de tudo isso, faltou ética. Um cristão, por mais rasa que seja sua religiosidade, sabe que não se pode zombar, perversamente, das desgraças alheias. Perdoem-me pelo exagero – exagerado que sou – mas, ao ver em DVD o ridículo arranjo do Sambô, tive a estranha sensação de estar ali, ao lado daquele público insano, sambando em meio a uma carnificina!

11 comentários:

  1. Faltou mesmo sensibilidade ao grupo. Ótimo texto, Alfredo!
    Abrç

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  2. Faltou muita sensibilidade!
    Obrigado amiga pela visita...
    Alfredo

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  3. Respostas
    1. Valeu professor...
      Cuidado pra não tocar essa música em teu cavaco rsrsrsrsr

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  4. Parabéns pelo excelente texto,grande Mestre Alfredo Werney.

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  5. Meus cumprimentos, Alfredo, pela excelente análise. Viu o que, pra muitos, estava escondido: essa pagodização soa ridícula mesmo. Bem dito.

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    1. Olá amigo...Agradeço a leitura!

      Grande abraço

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  6. Meus cumprimentos, Alfredo, pela excelente análise. Viu o que, pra muitos, estava escondido: essa pagodização soa ridícula mesmo. Bem dito.

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    1. Valeu amigo poeta...
      Os poetas tem ouvidos sempre afinados!

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  7. Olá turma, quem gostou do texto pode divulgar no facebook e em outras redes sociais...

    Valeu gente!

    Alfredo Werney

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